terça-feira, 2 de abril de 2019

A ação pendular da igreja: entre Moisés, Cristo e os Direitos Humanos

Por Gilvan Monteiro da Rocha

Portugal tem “bom currículo” nos direitos humanos, mas violações persistem
Endereço da imagem na Bibliografia.
E enviou mensageiros à sua frente. Indo estes, entraram num povoado samaritano para lhe fazer os preparativos; mas o povo dali não o recebeu porque se notava em seu semblante que ele ia para Jerusalém. Ao verem isso, os discípulos Tiago e João perguntaram: "Senhor, queres que façamos cair fogo do céu para destruí-los"? Mas Jesus, voltando-se, os repreendeu, dizendo: "Vocês não sabem de que espécie de espírito são, pois o Filho do homem não veio para destruir a vida dos homens, mas para salvá-los"; e foram para outro povoado (Lucas 9:52-56).
Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos” (Declaração Universal dos Direitos Humanos, Artigo 18). 

Começo essa palestra com um tom confessional. Quero confessar o meu pertencimento a uma religião marcada por varias contradições. Sim, a história do Cristianismo, religião a qual pertenço, é uma historia marcada pela busca da compreensão do outro, pela defesa dos menos favorecidos, pela luta por justiça, pelo respeito às diferenças, pelo amparo aos sofredores do mundo; mas também, tenho que confessar, é uma história marcada por perseguição, pela dor, pelo sofrimento e por sangue, muito sangue! 

Mas não estou, nesse momento, me referindo ao sangue dos chamados mártires da fé: Aqueles que, de acordo com nossa tradição, tiveram suas vidas dizimadas simplesmente por crerem em Jesus de Nazaré. Desses falamos sempre. Ao contrário, estou me referindo ao sangue, ao sofrimento e a dor daqueles que foram mortos, perseguidos ou humilhados, por simplesmente recusarem a se submeter à fé cristã, em diversos momentos de nossa historia. Entre esses posso falar desde os pagãos que presenciaram a transformação do cristianismo em religião oficial do império romano durante os séculos IV e V, as mulheres queimadas sob a acusação de bruxaria na idade média, aos hereges que recusavam a submissão à religião oficial mesmo depois da Idade Média, os negros trazidos da África para a América que insistiram em suas praticas religiosas originais, aos índios do novo continente, entre eles, o imperador inca, Atahualpa, morto por Pizarro depois de rejeitar o cristianismo abraçado pelos espanhóis. 

Sim, essa é uma face horrível e estranha do cristianismo, não posso negar! Diante dessa realidade incontestável, somos obrigados a perguntar: o que faz com que uma única religião assuma faces tão distintas e tão estranhas? Quais são os fundamentos de ações tão contraditórias? Sendo Cristo um pacifista, defensor dos direitos humanos, defensor da vida, alguém desprovido de qualquer preconceito ou ódio de qualquer natureza, como poderia uma religião nascida de alguém dessa natureza, assumir formas tão discrepantes? 

Garanto que, no momento, não tenho muitas respostas. Entretanto, gostaria de me deter em algo que acredito ser fundamental em uma discussão dessa natureza: a chave hermenêutica. Ou seja, perspectiva a partir da qual cada grupo que se identifica como cristão interpreta as Escrituras e se orienta. 

Diria que, desde os tempos dos apóstolos o cristianismo teve que lidar com o que chamamos de Antigo e Novo Testamento. No primeiro, um conjunto de 39 livros (nas Bíblias protestantes) que narram desde a origem do mundo, o surgimento da humanidade, o aparecimento de Abraão e a escravidão no Egito de sua família, a saída do povo hebreu do Egito, a passagem desse povo pelo deserto da Arábia, a invasão de Canaã e a destruição ou dominação dos cananeus pelos hebreus, o estabelecimento e consolidação de um reino hebreu em Canaã (atual Palestina), a decadência do reino hebreu e sua dominação sob os babilônios, o pós-cativeiro babilônico e a restauração parcial do reino hebreu durante o império persa, povos que subjugaram o reino babilônico. 

O Novo Testamento, por sua vez, começa com uma biografia de Cristo, contem um livro que conta a historia do inicio e expansão da igreja, as cartas doutrinarias e um livro de profecia. Aparentemente esses dois testamentos se completam, entretanto, existem diferenças de cosmovisão em seus dois principais personagens: Cristo e Moisés. 

 A PERSPECTIVA DE MOISÉS 

Moisés escreveu seus livros no calor do deserto, enquanto liderava o povo em direção a Canaã. Segundo o escritor hebreu Flávio Josefo, Moisés possuía uma sólida formação egípcia, militar inclusive, tanto que sua primeira ação ao sair do Egito foi organizar um exercito com 600 mil homens. A intenção de Moisés era expulsar os moradores da Palestina e implantar ali um reino teocrático com uma solida organização religiosa, onde seria proibida qualquer outra manifestação de crença, senão aquela orientada pelos sacerdotes. A lei mosaica, em parte muito próxima do Código de Hamurabi, por sinal, contem regras rígidas na organização social, politica e religiosa da nação idealizada por Moisés. 

Como o historiador estuda o homem no seu tempo e o teólogo busca compreender o texto dentro de seu contexto, entendo que é preciso compreender Moisés dentro de sua própria realidade e época. Nessa perspectiva, em meio a povos politeístas, implantar um reino monoteísta exigia uma boa dose de força. Até porque o próprio povo hebreu não era exclusivista em sua forma de praticar a religião. Tanto que o que mais motivou o surgimento da profecia em Israel foi o espirito politeísta e inclusivista do povo hebreu. Toda vez que a religião pendia para o ensino de Moisés, os profetas passavam quase despercebidos; toda vez que o povo se tornava mais inclusivista, os profetas se levantavam para chamá-los ao arrependimento. 

Ou seja, o ideal era de uma religião exclusivista, que continha em suas regras a punição para os que transgredissem essa pratica, por colocarem em risco a organização social da nação, inclusive. Outras religiões deveriam não apenas não ser praticadas, mas, nem mesmo, toleradas. Dentro desse contexto, as praticas religiosas estavam intrinsecamente ligadas às praticas sociais, de forma que havia punições previstas em todas as áreas da vida. Vejamos alguns exemplos: 

• “Não deixem viver a feiticeira” (Êxodo 22:18).
• “Se um homem cometer adultério com a mulher de outro homem, com a mulher de seu próximo, tanto o adúltero quanto a adúltera terão que ser executados” (Levítico 20:10). 
• “Se o ladrão que for pego arrombando for ferido e morrer, quem o feriu não será culpado de homicídio [...]” (Êxodo 22:2). 
• "Se um homem tiver relações sexuais com um animal, terá que ser executado, e vocês matarão também o animal” (Levítico 20:15). 
• "Se um homem se deitar com outro homem como quem se deita com uma mulher, ambos praticaram um ato repugnante. Terão que ser executados, pois merecem a mor-te” (Levítico 20:13). 
• "Se alguém amaldiçoar seu pai ou sua mãe, terá que ser executado. Por ter amaldiçoa¬do o seu pai ou a sua mãe, merece a morte” (Levítico 20:09). 
• "Os homens ou mulheres que, entre vocês, forem médiuns ou consultarem os espíritos, terão que ser executados. Serão apedrejados, pois merecem a morte" (Levítico 20:10). 

Esses são apenas alguns poucos exemplos. Uma questão importante é que todas essas penas dizem respeito apenas aos hebreus e não tinham a intenção de impor isso sobre os outros povos. Entretanto, Jorge Pinheiro (2007, p. 63) nos informa que a particularidade desejada por Moisés só começou a encontrar espaço entre os judeus a partir dos profetas e, principalmente, no pós-cativeiro Babilônico, após o surgimento de Esdras e Neemias. Durante todo o período que vai da invasão de Canaã ao cativeiro babilônico no VI século antes de Cristo, o povo foi politeísta a maior parte do tempo. 

 A PERSPECTIVA DE CRISTO 

Ao contrario de Moisés, a mensagem de Cristo é universal, por isso ela se caracteriza pela compreensão, pela compaixão, pela misericórdia, pelo respeito à dignidade e liberdade humanas, enfim, pelo amor incondicional. Nesse sentido, algo a se considerar é a percepção de que os tempos de Cristo, diferente dos tempos de Moisés, estavam marcados por mudanças significativas no mundo do Mediterrâneo. Desde o século VI antes de Cristo, os hebreus viveram sob o domínio babilônico, persa, grego, e agora, romano. 

A cultura grega havia se espalhado por todo o mediterrâneo, afetando a forma de vida de todos os povos e, os hebreus, por sua vez, haviam vivenciado todo esse processo de mudanças. Eram novos tempos. A fé que Cristo pregou tinha como objetivo o alcance não apenas de uma tribo, ou um povo em particular, mas toda a humanidade. Dessa forma, essa percepção do divino, apesar de ter como fundamento os textos do Antigo Testamento, faz emergir dele uma visão depurada dos elementos absolutos e impositivos da Lei mosaica, enquanto se valorizou a ideia de liberdade, voluntariedade e respeito pela integridade do ser humano. 

Diferente de Moisés, Cristo não tinha a intenção de fundar uma teocracia nem impor uma religião. Sua mensagem é chamada de “boas novas”, e seu núcleo principal é o que chamamos de “Sermão do Monte" (MATEUS, capítulos 5 a 7), onde, ao contrario de Moisés, ele nos ensina a amar os nossos inimigos, bendizer os que nos maldizem, e orar pelos que nos perseguem. 

Sua forma de ver a relação do ser humano com Deus, fez com que ele elogiasse a atitude da Rainha de Sabá, uma rainha africana, comesse com publicanos e pecadores, impedisse o julgamento e a condenação sumaria de uma mulher acusada de adultério, dividisse o pão com os pobres, e, na hora de usar um exemplo máximo do amor ao próximo, citasse a atitude de um samaritano, um praticante de um culto rival do culto judaico em Jerusalém. 

A IGREJA OSCILANTE 

Dessa forma, esses elementos nos permitem afirmar que o que vemos ao longo da historia é uma igreja que oscila entre Cristo e Moisés. Quando ela está mais para Moisés, aparecem as ideias de Estado Teocrático, de uniformização da sociedade, de imposição da fé, de Inquisição, de caça às bruxas, Escravidão negra, de limitação das liberdades individuais, de desrespeito aos diretos dos indivíduos, Teologia da Prosperidade, de barganha com Deus. Todas essas coisas que só podem ser sustentadas a partir de uma leitura equivocada do Antigo Testamento. 

Entretanto, quando o pendulo oscila em direção a Cristo, vemos o ressurgimento de uma visão mais ampla de respeito aos direitos individuais, de defesa das liberdades, de suspensão do moralismo, da voluntariedade, da compreensão do ser humano e suas complexidades e problemáticas, da defesa da justiça, da defesa e proteção dos mais vulneráveis na sociedade, da aceitação das diferenças, da repartição do pão. 

Quando Moisés está em alta, não temos problemas em queimar a Biblioteca de Alexandria, começam a surgir os manuais de inquisição, surgem os Pizarros, as ditaduras em nome de Deus; somente quando Moisés está em alta é possível as perseguições aos que pensam diferente, ou as destruições dos Terreiros de Candomblé, para citar um exemplo mais próximo de nós. 
Entretanto, quando Cristo está em alta, surgem os Franciscos de Assis, os Bartolomé de Las Casas, os Luther King, os Mahatma Gandhi. Somente quando Cristo está em alta acontecem o respeito aos que são diferentes, que creem diferente; acontecem também, por mãos evangélicas, as reconstruções dos Terreiros de Candomblé destruídos pelos fanatismos que ameaçam a civilização (1).  

O objetivo aqui não é negar a importância de Moisés, mas dizer que somente olhando Moisés com os olhos de Cristo, poderemos compreender a essência da fé Cristã e sua vocação para o respeito, para a paz e para a vida. Afinal, uma das frases mais impactantes do sermão do monte é “Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5:9). 

Para encerrar essa fala gostaria de citar duas frases que considero extremamente importantes nesta reflexão. Em primeiro lugar, Voltaire, quando lucidamente questiona os fanáticos franceses do século XVIII: 
Sabes que a intolerância só produz hipócritas ou rebeldes: que funesta alternativa! Finalmente, pretendes sustentar por meio de algozes a religião de um Deus que morreu por meio de algozes e que não pregou senão a amabilidade e a paciência”? (2017, p. 63). 
 Por ultimo, Jesus Cristo, quando chama Pedro de volta à razão: “[...] Pedro: guarde a espada!” (João 18:11). 


  1. Um caso acontecido no Estado do Rio de Janeiro e noticiado pela BBC em abril de 2018. https://www.bbc.com/portuguese/brasil-43879422  

  • Texto apresentado durante Mesa Redonda sobre Religião e Direitos Humanos, no IV SINTEPE (Simpósio de Integração Ensino Pesquisa e Extensão) na UNEB – Universidade do Estado da Bahia – Campus XVII, Eunápolis – Bahia, no dia 29/11/2018.
  • Gilvan Monteiro da Rocha é Graduado em História pela UNEB (Universidade do Estado da Bahia) , Graduado em Teologia pelo CETADEB (Centro Educacional Teológico das Assembleias de Deus no Brasil), Pós-graduando em Educação e Interculturalidade pelo IFBA – Instituto Federal do Estado da Bahia – Campus Porto Seguro, professor no Centro de Educação Profissional da Costa do Descobrimento – Eunápolis - BA, Pastor da Comunidade Cristã Nova Vida.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
Bíblia Nova Versão Internacional 
Declaração Universal dos Direitos Humanos. Disponível em: https://nacoesunidas.org/wp-content/uploads/2018/10/DUDH.pdf Acesso em 28/11/2018. 
FAVRE, Henry. A civilização Inca. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1972. 
JOSEFO, Flávio: História dos Hebreus. Rio de Janeiro: CPAD, 2000. 
PINHEIRO, Jorge. História e religião de Israel: origem e crise do pensamento judaico. São Paulo: Editora vida, 2007. 
VOLTAIRE. Tratado sobre a Tolerância. São Paulo: Lafonte, 2017.

Imagem disponível em: https://www.dnoticias.pt/pais/portugal-tem-bom-curriculo-nos-direitos-humanos-mas-violacoes-persistem-HJ3649081 02/04/2019

sexta-feira, 17 de abril de 2015

A TEOLOGIA DA PROSPERIDADE E O CULTO AO AMOR-PRÓPRIO (VERSÃO AMPLIADA)


 Por G. M. Rocha
No início do mês de abril deste ano de 2015, encontrei no portão de minha casa um panfleto da Igreja Internacional da Graça que trazia como título, “OFERTA ALÇADA AO SENHOR”. Abaixo do título principal, havia um quadro com uma relação de sete motivos que o indivíduo teria para contribuir financeiramente com a igreja e trazia em letras maiúsculas com destaque para o número 7, o seguinte subtítulo “AS 7 LEIS DA SEMEADURA”, que na verdade buscava elencar 7 vantagens para o contribuinte, todas com afirmações bíblicas, numa clara tentativa de dar legitimidade a essas “leis”. Ao lado, um texto buscava resumir a questão na seguinte frase: “O Dízimo proporciona proteção. A Oferta Alçada igual ou superior ao Dízimo multiplica o que você tem e todo o seu patrimônio já cresce protegido”.

Para um atento leitor das Escrituras Sagradas, que ouve ou lê um desses discursos apelativos dos pregadores da Teologia da Prosperidade carregado de um apelo ao amor-próprio dos seus ouvintes, não é difícil identificar como esses “bondosos senhores” estão levando até às últimas consequências a sua análise sobre as verdadeiras motivações das ações dos indivíduos e de como conseguir com maior facilidade que se interessem por alguma causa. O que acontece é que apesar de usarem sempre a Bíblia na tentativa de sustentar e legitimar o discurso que fazem, na verdade, o que fundamenta suas afirmações são os princípios que estão na base do Liberalismo e Neoliberalismo econômico, conforme se pode observar na extensa obra de Adam Smith, A Riqueza das Nações. 

Esse autor do século XVIII, ao analisar a sociedade europeia na fase inicial da Revolução Industrial, observa que existem pelo menos três formas de se conseguir que alguém faça aquilo que queremos: ou através da bajulação, como fazem os cães de estimação quando querem que seus senhores lhes repartam o jantar, ou esperando pela benevolência dos indivíduos, ou apelando para o seu amor-próprio. Para o autor, no entanto, esta última é a maneira mais segura de conseguirmos o que queremos, principalmente quando se trata de uma sociedade civilizada. No volume I do seu livro ele coloca a questão nos seguintes termos:

  • Numa sociedade civilizada, ele (O homem) necessita constantemente da ajuda e cooperação de uma multidão de gente, e sua vida inteira mal é suficiente para conquistar a amizade de umas poucas pessoas. Em quase todas as outras espécies animais, cada indivíduo, ao atingir a maturidade, torna-se inteiramente independente e, em sua situação normal, não precisa de ajuda de qualquer outra criatura viva. Mas o homem quase sempre precisa da ajuda de seus semelhantes, e seria vão esperar obtê-la somente da benevolência. Terá maiores chances de conseguir o que quer se puder interessar o amor-próprio deles a seu favor e convence-los de que terão vantagem em fazer o que deles pretende. Todos os que oferecem a outro qualquer espécie de trato propõe-se fazer isso. Dê-me aquilo que eu desejo, e terás isto que desejas, é o significado de todas as propostas desse gênero e é dessa maneira que nós obtemos uns dos outros a grande maioria dos favores e serviços de que necessitamos. Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelos próprios interesses. Apelamos não à humanidade, mas ao amor-próprio, e nunca falamos de nossas necessidades, mas das vantagens que eles podem obter (Volume I, p. 20). 

Percebam que o autor não afirma que esta seja a única maneira de se conseguir as coisas, mas aquela com maior garantia de sucesso, e, nesse caso, não seria muito afirmar que esta ideia está no centro de todas as formas de organizações do atual sistema capitalista. O nosso modelo econômico explorou até a últimas consequências essa forma de lidar com as pessoas no mundo globalizado. Todas as empresas, todas as campanhas de marketing, todas as atividades econômicas e até as relações pessoais se orientam pela necessidade diária de um apelo ao amor-próprio de cada indivíduo, sob o risco de ficar com suas mercadorias encalhadas nas prateleiras, ou se romper com determinados laços sociais, caso se espere que as pessoas comprem ou ajam motivadas apenas por suas necessidades reais, ou por um ato de benevolência para com os vendedores ou as pessoas ao seu redor. 

Desta forma é preciso não falar dos perigos dos juros absurdos embutidos nas prestações, mas da facilidade da compra parcelada, nunca se fala do perigo do endividamento, mas da felicidade de se assistir um programa numa TV de 52 polegadas, ou dirigir um carro do ano, nunca se mostra as misérias causadas pelo uso das bebidas alcoólicas, mas a felicidade de se tomar uma cerveja à beira de uma piscina rodeada de mulheres bonitas, pois é preciso mover o indivíduo a partir do que ele tem de bom apenas para si mesmo, o amor-próprio, sem se importar com o interesse do outro, do próximo. 

Como se percebe, esse tipo de abordagem é completamente oposto ao que ensina o Novo Testamento, onde tanto Cristo como os apóstolos insistem na necessidade da ação desinteressada da parte dos cristãos. Para eles a força motora das pessoas que creem em Deus deve ser não o amor-próprio, mas o “amar a Deus acima de tudo e ao próximo como a si mesmo”. O que o ensino das Escrituras nos apontam, é que a humanidade estará sempre em risco, todas as vezes que o amor a si mesmo esteja acima do amor a Deus e ao próximo. 

Dessa forma, o que se espera de todo cristão não é uma ação motivada pela busca do seu próprio interesse, mas pela benevolência desinteressada. Porém, aqui estão as grandes questões que se impõem como grandes desafios à grande parte dos líderes evangélicos no Brasil: como conseguir realizar obras grandiosas, construir templos faraônicos (ou salomônicos, como queiram), manter o padrão de vida desejado por pregadores e pastores que se dizem filhos do rei e príncipes de Deus, esperando apenas pelas contribuições provindas do altruísmo e da generosidade dos pragmáticos cristãos pós-modernos? Para aqueles ministros que aceitam viver modestamente e não tem sonhos (ou fantasias) de se construir grandes e caras catedrais, de viver uma vida luxuosa, de possuir um jatinho particular, exibir roupas de grifes ou frequentar restaurantes requintados, talvez seja possível se manter pregando o Evangelho contando apenas com a generosidade de alguns poucos cristãos, ou às próprias custas. 


No entanto, os novos tempos se mostram um tanto nebulosos para aqueles que querem realizar coisas fantásticas, caso não apelem para o egoísmo e o amor-próprio dos frequentadores de igrejas. Desta forma, os pregadores são chamados a decidir entre as observações de Adam Smith e o ensino de Cristo, entre o contentamento e a ganancia, entre a Bíblia e A Riqueza das Nações. 

Pelo visto, grande parte dos líderes de igrejas não teve dúvidas e optou por um discurso mais pragmático, com garantias mais imediata de sucesso, pois, afinal de contas, boa parte das pessoas não está mais em busca do que é certo, mas do que dá certo, não está em busca de uma verdade, mas de obterem a qualquer custo o que desejam ou o que foram programadas para desejar. 

Diante disto, não há nada mais incomodo para quem tenha um pouco de noção do que a Sagrada Escritura nos ensina sobre dízimos e ofertas, do que ver a forma abusiva e opressora com que muitas instituições ditas evangélicas abordam o assunto em suas reuniões diárias. O que a maioria das pessoas não se dá conta é que essa abordagem nada tem a ver com o ensino ortodoxo da fé cristã, mas com um modelo introduzido no meio cristão desde a segunda metade do século passado, a partir do movimento da fé (Hanegraaff, 1996) surgido do movimento pentecostal nos EUA e difundido no Brasil a partir de 1980 pelo chamado Neopentecostalismo (Mariano,1999), uma abordagem sobre dinheiro que foge completamente do ensino neotestamentario ao mesmo tempo em que se aproxima da logica imposta pelo neoliberalismo econômico, com fortes fundamentos nas observações de Adam Smith. 

É preciso que se diga, no entanto, que quer seja entre católicos ou protestantes o dízimo sempre foi uma forma de se financiar os projetos dessas instituições. Apesar de os equívocos sobre a interpretação do livro de Malaquias fazer parte do ensino de quase todas as denominações, mesmo as mais conservadoras, foi a partir de Oral Roberts e Kenneth Hagin dois pregadores norte-americanos, que segundo Ricardo Mariano (1999) teve início um apelo sistemático para que as pessoas contribuíssem com os projetos da igreja, sob a promessa de se alcançar a prosperidade financeira. 

Dessa forma, não é mais da generosidade ou altruísmo dos fiéis que se espera as contribuições, mas do apelo ao amor-próprio dos cristãos como forma de se aumentar a arrecadação dos dízimos e das generosas ofertas sob o argumento de que os contribuintes seriam os maiores beneficiados nessas transações. Uma questão relacionada à pregação de Oral Roberts, citada por Ricardo Mariano, diz respeito ao que motivou a nova proposta de arrecadação, que foi o aumento das despesas com o tempo de TV, motivada pela competição dos próprios televangelistas nos Estados Unidos na década de 60 (Mariano, 1999, p. 152). 

Esta questão está também muito presente entre os pregadores da Teologia da Prosperidade no Brasil. O que está posto em todas as instituições cujos pregadores apelam para essa nova teologia é exatamente os projetos extravagantes que exigem grande quantidade de dinheiro para se realizar, o desejo de sucesso pessoal da liderança, e a ostentação de um estilo de vida que somente uma pequena parte de bem-aventurados conseguem alcançar, no mundo globalizado. Perguntem, quantas pessoas podem comprar um jatinho particular, possuir um helicóptero, morar em uma mansão, se hospedar em hotéis 5 estrelas, fazer viagem anual à Israel, e não será difícil se constatar que esses luxos estão reservados apenas a uns poucos “semideuses” que habitam o nosso planeta. 

Todavia, os pregadores da prosperidade, estando em um grande centro, nas periferias das grandes cidades, ou no interior, já começam o ministério almejando alcançar essas realizações alardeadas pelos que conseguiram o auge da “bem-sucedida carreira”. Quem já alcançou o sucesso serve de inspiração aos aspirantes que desde as maiores até as mais pobres igrejas mergulham os crentes em campanhas ininterruptas, espremendo-os o máximo que podem, para doarem até o último centavo. 

Porém, esses bons discípulos da sociedade neoliberal nunca revelam aos crentes suas verdadeiras intenções. O que fazem da forma mais cínica possível é afirmarem que toda vez que esses crentes seguirem obedientemente suas receitas prontas sobre as ofertas estipuladas, se colocarão em posição de serem abençoados por Deus e conseguirão realizar os seus sonhos mais impossíveis. Assim, enquanto o Valdemiro Santiago convida os seus telespectadores a doarem os dízimos do salário que desejavam ter no ano seguinte, afirmando que quem ganhasse mil reais e quisesse um salário de três mil deveria entregar um dízimo antecipado de trezentos reais, O Silas Malafaia estourava a garganta para convencer as pessoas que queriam “conquistar” a casa própria a doar o valor de um aluguel para o seu programa para alcançar o milagre, outro pregador um tanto mais grosseiro insistia que quem comprasse um quilo de cimento “ungido” em sua campanha teria a garantia do milagre da prosperidade ao incluir aquele produto na massa da construção do seu ponto comercial, por exemplo. 

Desta forma o que se pode perceber em cada um desses discursos é o fato de todos esses indivíduos que se auto intitulam de “homens de Deus” jamais apelarem ao altruísmo cristão, ou à benevolência; jamais falam dos próprios benefícios que desejam obter nessas transações ou dos seus desejos ocultos de desfrutarem de uma vida luxuosa as custas dos desinformados; jamais mostram que os templos luxuosos que constroem nada têm a ver com os ensinos de Cristo, mas com seus desejos pessoais de se destacarem no competitivo mercado religioso como homens de grandes realizações; jamais ensinam aos cristãos que essas campanhas têm apenas a função de alimentar nas pessoas um desejo de alcançar um sucesso que jamais passarão disso, desejo, e que quem lucra de verdade nessas transações são os pregadores, que enquanto incentivam os crentes a esperarem um milagre, eles mesmos, pragmáticos que são, não esperam milagre algum, antes se apossam sem nenhuma misericórdia e com toda a voracidade dos dízimos e ofertas das pessoas mais miseráveis possíveis e se enriquecem vendendo ilusões em nome de Deus. 

Assim, por mais que tentem argumentar, esses indivíduos não servem a Deus, mas servem ao sistema capitalista; não amam as pessoas, mas amam ao dinheiro; não estão comprometidos com a pregação do evangelho, mas com a sociedade de consumo; não estão preocupados em ajudar a formar um mundo mais generoso e solidário, mas um mundo egoísta e individualista, e dessa forma, esses pregadores não são discípulos de Cristo, mas escravos das suas próprias ambições. E assim, enquanto o amor-próprio é cultuado em suas reuniões, a Palavra de Deus é adulterada, o povo é enganado, a verdade do evangelho é completamente desprezada, Deus é rejeitado e Mamom, entronizado. 

BIBLIOGRAFIA 
HANEGRAAFF, Hank. Cristianismo em Crise. Rio de Janeiro: CPAD, 1996. 
MARIANO, Ricardo. Neopentecostais – Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Edições Loiola, 1999. 
SMITH, Adam. A Riqueza das Nações, Volume I. São Paulo: Martins Fontes, 2003.