sexta-feira, 17 de abril de 2015

A TEOLOGIA DA PROSPERIDADE E O CULTO AO AMOR-PRÓPRIO (VERSÃO AMPLIADA)


 Por G. M. Rocha
No início do mês de abril deste ano de 2015, encontrei no portão de minha casa um panfleto da Igreja Internacional da Graça que trazia como título, “OFERTA ALÇADA AO SENHOR”. Abaixo do título principal, havia um quadro com uma relação de sete motivos que o indivíduo teria para contribuir financeiramente com a igreja e trazia em letras maiúsculas com destaque para o número 7, o seguinte subtítulo “AS 7 LEIS DA SEMEADURA”, que na verdade buscava elencar 7 vantagens para o contribuinte, todas com afirmações bíblicas, numa clara tentativa de dar legitimidade a essas “leis”. Ao lado, um texto buscava resumir a questão na seguinte frase: “O Dízimo proporciona proteção. A Oferta Alçada igual ou superior ao Dízimo multiplica o que você tem e todo o seu patrimônio já cresce protegido”.

Para um atento leitor das Escrituras Sagradas, que ouve ou lê um desses discursos apelativos dos pregadores da Teologia da Prosperidade carregado de um apelo ao amor-próprio dos seus ouvintes, não é difícil identificar como esses “bondosos senhores” estão levando até às últimas consequências a sua análise sobre as verdadeiras motivações das ações dos indivíduos e de como conseguir com maior facilidade que se interessem por alguma causa. O que acontece é que apesar de usarem sempre a Bíblia na tentativa de sustentar e legitimar o discurso que fazem, na verdade, o que fundamenta suas afirmações são os princípios que estão na base do Liberalismo e Neoliberalismo econômico, conforme se pode observar na extensa obra de Adam Smith, A Riqueza das Nações. 

Esse autor do século XVIII, ao analisar a sociedade europeia na fase inicial da Revolução Industrial, observa que existem pelo menos três formas de se conseguir que alguém faça aquilo que queremos: ou através da bajulação, como fazem os cães de estimação quando querem que seus senhores lhes repartam o jantar, ou esperando pela benevolência dos indivíduos, ou apelando para o seu amor-próprio. Para o autor, no entanto, esta última é a maneira mais segura de conseguirmos o que queremos, principalmente quando se trata de uma sociedade civilizada. No volume I do seu livro ele coloca a questão nos seguintes termos:

  • Numa sociedade civilizada, ele (O homem) necessita constantemente da ajuda e cooperação de uma multidão de gente, e sua vida inteira mal é suficiente para conquistar a amizade de umas poucas pessoas. Em quase todas as outras espécies animais, cada indivíduo, ao atingir a maturidade, torna-se inteiramente independente e, em sua situação normal, não precisa de ajuda de qualquer outra criatura viva. Mas o homem quase sempre precisa da ajuda de seus semelhantes, e seria vão esperar obtê-la somente da benevolência. Terá maiores chances de conseguir o que quer se puder interessar o amor-próprio deles a seu favor e convence-los de que terão vantagem em fazer o que deles pretende. Todos os que oferecem a outro qualquer espécie de trato propõe-se fazer isso. Dê-me aquilo que eu desejo, e terás isto que desejas, é o significado de todas as propostas desse gênero e é dessa maneira que nós obtemos uns dos outros a grande maioria dos favores e serviços de que necessitamos. Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelos próprios interesses. Apelamos não à humanidade, mas ao amor-próprio, e nunca falamos de nossas necessidades, mas das vantagens que eles podem obter (Volume I, p. 20). 

Percebam que o autor não afirma que esta seja a única maneira de se conseguir as coisas, mas aquela com maior garantia de sucesso, e, nesse caso, não seria muito afirmar que esta ideia está no centro de todas as formas de organizações do atual sistema capitalista. O nosso modelo econômico explorou até a últimas consequências essa forma de lidar com as pessoas no mundo globalizado. Todas as empresas, todas as campanhas de marketing, todas as atividades econômicas e até as relações pessoais se orientam pela necessidade diária de um apelo ao amor-próprio de cada indivíduo, sob o risco de ficar com suas mercadorias encalhadas nas prateleiras, ou se romper com determinados laços sociais, caso se espere que as pessoas comprem ou ajam motivadas apenas por suas necessidades reais, ou por um ato de benevolência para com os vendedores ou as pessoas ao seu redor. 

Desta forma é preciso não falar dos perigos dos juros absurdos embutidos nas prestações, mas da facilidade da compra parcelada, nunca se fala do perigo do endividamento, mas da felicidade de se assistir um programa numa TV de 52 polegadas, ou dirigir um carro do ano, nunca se mostra as misérias causadas pelo uso das bebidas alcoólicas, mas a felicidade de se tomar uma cerveja à beira de uma piscina rodeada de mulheres bonitas, pois é preciso mover o indivíduo a partir do que ele tem de bom apenas para si mesmo, o amor-próprio, sem se importar com o interesse do outro, do próximo. 

Como se percebe, esse tipo de abordagem é completamente oposto ao que ensina o Novo Testamento, onde tanto Cristo como os apóstolos insistem na necessidade da ação desinteressada da parte dos cristãos. Para eles a força motora das pessoas que creem em Deus deve ser não o amor-próprio, mas o “amar a Deus acima de tudo e ao próximo como a si mesmo”. O que o ensino das Escrituras nos apontam, é que a humanidade estará sempre em risco, todas as vezes que o amor a si mesmo esteja acima do amor a Deus e ao próximo. 

Dessa forma, o que se espera de todo cristão não é uma ação motivada pela busca do seu próprio interesse, mas pela benevolência desinteressada. Porém, aqui estão as grandes questões que se impõem como grandes desafios à grande parte dos líderes evangélicos no Brasil: como conseguir realizar obras grandiosas, construir templos faraônicos (ou salomônicos, como queiram), manter o padrão de vida desejado por pregadores e pastores que se dizem filhos do rei e príncipes de Deus, esperando apenas pelas contribuições provindas do altruísmo e da generosidade dos pragmáticos cristãos pós-modernos? Para aqueles ministros que aceitam viver modestamente e não tem sonhos (ou fantasias) de se construir grandes e caras catedrais, de viver uma vida luxuosa, de possuir um jatinho particular, exibir roupas de grifes ou frequentar restaurantes requintados, talvez seja possível se manter pregando o Evangelho contando apenas com a generosidade de alguns poucos cristãos, ou às próprias custas. 


No entanto, os novos tempos se mostram um tanto nebulosos para aqueles que querem realizar coisas fantásticas, caso não apelem para o egoísmo e o amor-próprio dos frequentadores de igrejas. Desta forma, os pregadores são chamados a decidir entre as observações de Adam Smith e o ensino de Cristo, entre o contentamento e a ganancia, entre a Bíblia e A Riqueza das Nações. 

Pelo visto, grande parte dos líderes de igrejas não teve dúvidas e optou por um discurso mais pragmático, com garantias mais imediata de sucesso, pois, afinal de contas, boa parte das pessoas não está mais em busca do que é certo, mas do que dá certo, não está em busca de uma verdade, mas de obterem a qualquer custo o que desejam ou o que foram programadas para desejar. 

Diante disto, não há nada mais incomodo para quem tenha um pouco de noção do que a Sagrada Escritura nos ensina sobre dízimos e ofertas, do que ver a forma abusiva e opressora com que muitas instituições ditas evangélicas abordam o assunto em suas reuniões diárias. O que a maioria das pessoas não se dá conta é que essa abordagem nada tem a ver com o ensino ortodoxo da fé cristã, mas com um modelo introduzido no meio cristão desde a segunda metade do século passado, a partir do movimento da fé (Hanegraaff, 1996) surgido do movimento pentecostal nos EUA e difundido no Brasil a partir de 1980 pelo chamado Neopentecostalismo (Mariano,1999), uma abordagem sobre dinheiro que foge completamente do ensino neotestamentario ao mesmo tempo em que se aproxima da logica imposta pelo neoliberalismo econômico, com fortes fundamentos nas observações de Adam Smith. 

É preciso que se diga, no entanto, que quer seja entre católicos ou protestantes o dízimo sempre foi uma forma de se financiar os projetos dessas instituições. Apesar de os equívocos sobre a interpretação do livro de Malaquias fazer parte do ensino de quase todas as denominações, mesmo as mais conservadoras, foi a partir de Oral Roberts e Kenneth Hagin dois pregadores norte-americanos, que segundo Ricardo Mariano (1999) teve início um apelo sistemático para que as pessoas contribuíssem com os projetos da igreja, sob a promessa de se alcançar a prosperidade financeira. 

Dessa forma, não é mais da generosidade ou altruísmo dos fiéis que se espera as contribuições, mas do apelo ao amor-próprio dos cristãos como forma de se aumentar a arrecadação dos dízimos e das generosas ofertas sob o argumento de que os contribuintes seriam os maiores beneficiados nessas transações. Uma questão relacionada à pregação de Oral Roberts, citada por Ricardo Mariano, diz respeito ao que motivou a nova proposta de arrecadação, que foi o aumento das despesas com o tempo de TV, motivada pela competição dos próprios televangelistas nos Estados Unidos na década de 60 (Mariano, 1999, p. 152). 

Esta questão está também muito presente entre os pregadores da Teologia da Prosperidade no Brasil. O que está posto em todas as instituições cujos pregadores apelam para essa nova teologia é exatamente os projetos extravagantes que exigem grande quantidade de dinheiro para se realizar, o desejo de sucesso pessoal da liderança, e a ostentação de um estilo de vida que somente uma pequena parte de bem-aventurados conseguem alcançar, no mundo globalizado. Perguntem, quantas pessoas podem comprar um jatinho particular, possuir um helicóptero, morar em uma mansão, se hospedar em hotéis 5 estrelas, fazer viagem anual à Israel, e não será difícil se constatar que esses luxos estão reservados apenas a uns poucos “semideuses” que habitam o nosso planeta. 

Todavia, os pregadores da prosperidade, estando em um grande centro, nas periferias das grandes cidades, ou no interior, já começam o ministério almejando alcançar essas realizações alardeadas pelos que conseguiram o auge da “bem-sucedida carreira”. Quem já alcançou o sucesso serve de inspiração aos aspirantes que desde as maiores até as mais pobres igrejas mergulham os crentes em campanhas ininterruptas, espremendo-os o máximo que podem, para doarem até o último centavo. 

Porém, esses bons discípulos da sociedade neoliberal nunca revelam aos crentes suas verdadeiras intenções. O que fazem da forma mais cínica possível é afirmarem que toda vez que esses crentes seguirem obedientemente suas receitas prontas sobre as ofertas estipuladas, se colocarão em posição de serem abençoados por Deus e conseguirão realizar os seus sonhos mais impossíveis. Assim, enquanto o Valdemiro Santiago convida os seus telespectadores a doarem os dízimos do salário que desejavam ter no ano seguinte, afirmando que quem ganhasse mil reais e quisesse um salário de três mil deveria entregar um dízimo antecipado de trezentos reais, O Silas Malafaia estourava a garganta para convencer as pessoas que queriam “conquistar” a casa própria a doar o valor de um aluguel para o seu programa para alcançar o milagre, outro pregador um tanto mais grosseiro insistia que quem comprasse um quilo de cimento “ungido” em sua campanha teria a garantia do milagre da prosperidade ao incluir aquele produto na massa da construção do seu ponto comercial, por exemplo. 

Desta forma o que se pode perceber em cada um desses discursos é o fato de todos esses indivíduos que se auto intitulam de “homens de Deus” jamais apelarem ao altruísmo cristão, ou à benevolência; jamais falam dos próprios benefícios que desejam obter nessas transações ou dos seus desejos ocultos de desfrutarem de uma vida luxuosa as custas dos desinformados; jamais mostram que os templos luxuosos que constroem nada têm a ver com os ensinos de Cristo, mas com seus desejos pessoais de se destacarem no competitivo mercado religioso como homens de grandes realizações; jamais ensinam aos cristãos que essas campanhas têm apenas a função de alimentar nas pessoas um desejo de alcançar um sucesso que jamais passarão disso, desejo, e que quem lucra de verdade nessas transações são os pregadores, que enquanto incentivam os crentes a esperarem um milagre, eles mesmos, pragmáticos que são, não esperam milagre algum, antes se apossam sem nenhuma misericórdia e com toda a voracidade dos dízimos e ofertas das pessoas mais miseráveis possíveis e se enriquecem vendendo ilusões em nome de Deus. 

Assim, por mais que tentem argumentar, esses indivíduos não servem a Deus, mas servem ao sistema capitalista; não amam as pessoas, mas amam ao dinheiro; não estão comprometidos com a pregação do evangelho, mas com a sociedade de consumo; não estão preocupados em ajudar a formar um mundo mais generoso e solidário, mas um mundo egoísta e individualista, e dessa forma, esses pregadores não são discípulos de Cristo, mas escravos das suas próprias ambições. E assim, enquanto o amor-próprio é cultuado em suas reuniões, a Palavra de Deus é adulterada, o povo é enganado, a verdade do evangelho é completamente desprezada, Deus é rejeitado e Mamom, entronizado. 

BIBLIOGRAFIA 
HANEGRAAFF, Hank. Cristianismo em Crise. Rio de Janeiro: CPAD, 1996. 
MARIANO, Ricardo. Neopentecostais – Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Edições Loiola, 1999. 
SMITH, Adam. A Riqueza das Nações, Volume I. São Paulo: Martins Fontes, 2003.


quinta-feira, 31 de outubro de 2013

PENSANDO A REFORMA PROTESTANTE


Por G. M. Rocha

Hoje se completam 496 anos da Reforma Protestante. As teses de Lutero nos mostram que a venda de indulgencias foi o que podemos chamar de "estopim" do movimento de reforma. 
As pessoas estavam sendo induzidas a acreditar que assim que a moeda tilintasse nos cofres da igreja, uma alma voaria do purgatório. 
Na verdade, os vendedores de indulgencias estavam se aproveitando do temor que as pessoas tinham de irem para o inferno, e passaram a ganhar muito dinheiro, vendendo-lhes os céus. 

Em outras palavras, a religião arrecadava muito dinheiro explorando o medo das pessoas e os religiosos exerciam muito poder e controle sobre as pobres almas ignorantes.

E a pergunta que fazemos olhando o cenário evangélico atual é: O que mudou? o que permanece?
Pelo visto, mudaram-se o cenário; mudaram-se os atores; mudaram-se as causas do medo... Permanece a ganancia, a exploração dos diversos medos criados em nossa sociedade, o enriquecimento de lideres religiosos as custas de uma massa ignorante e acéfala.

Antes da Reforma, o povo não tinha direito à leitura das Escrituras e se tornaram massa de manobra nas mãos do clero católico, mas o que mudou? Temos a Bíblia, cada casa tem no mínimo uma completa ou pelo menos o Novo Testamento, mas mesmo assim temos um povo manipulado, ensandecido e alienado, e tudo isto porque apesar de termos a Bíblia não a lemos, e quando a lemos, lemos com os olhos condicionados pela interpretação dos que querem nos explorar e nos manter presos ao tronco da ignorância.

Resultado de tudo isto? Uma geração dominada pelo medo. Medo de "tocar nos ungidos do Senhor", sem perceber que para o Novo Testamento "ungido" não se trata de uma classe privilegiada, mas de todos os que acreditam em Cristo; e ainda, sem perceber que os indivíduos que usam esse termo, está na verdade, tentando se blindar para impedir que as pessoas se levantem contra o desmando deles. 

Mas não é só isto, temos medo que esses que se dizem ungidos tenham de fato o poder de nos amaldiçoar e assim as pessoas, como gado indefeso se deixa levar para qualquer lugar que interesse a esses "ungidos".
Somos uma geração que teme. Teme o tal de "devorador", uma especie de inimigo invocado pelos lideres para obrigar as pessoas a contribuírem com os seus dízimos, sob a pena de não conseguirem prosperar, ou de padecerem sob diversas doenças que o "Senhor" permitirá aos que não forem" fiéis" nesse quesito;

E ainda, somos uma geração que tem medo de que a família chegue ao fim, e não percebemos o quanto esse medo pode estar sendo usado por muitos, afim de que venhamos continuar elegendo políticos desonestos e corruptos pelo simples fato de ter um nome de "evangélicos" e posarem de "defensores da moral";
Poderia citar muitos outros exemplos de como o medo continua sendo uma poderosa arma nas mãos da religião evangélica no Brasil para oprimir, controlar, manipular e mentir em nome de Deus. 

Lamentável, mas somos uma geração de cristãos movida pelo medo, medo esse que os espertalhões usam sem nenhum escrúpulo para nos explorar, nos enganar, nos manter cativos e, pior de tudo, envergonhar o Evangelho de Cristo.
Assim, não somos uma geração que teme o inferno, por isso não estão mais nos vendendo o céu. O que tememos? Tememos não prosperar, não ter status; tememos as doenças, a violência; tememos o não ser competitivo. Por isto a moda é vender auto-realização, bençãos automáticas, prosperidades que aconteçam assim que as notas (não mais as moedas) caírem nos cofres das instituições.

Sei que ainda existem exceções, mas para mim esse dia da Reforma, pelo menos no caso do Brasil, tem pouco para se comemorar e muito para se indignar, para protestar, para confrontar, afim de que levantemos uma nova geração que crê em Deus, mas não se permite, nem por um único momento, se prostrar diante dos caprichos da religião.

Que Deus nos ajude!