terça-feira, 2 de abril de 2019

A ação pendular da igreja: entre Moisés, Cristo e os Direitos Humanos

Por Gilvan Monteiro da Rocha

Portugal tem “bom currículo” nos direitos humanos, mas violações persistem
Endereço da imagem na Bibliografia.
E enviou mensageiros à sua frente. Indo estes, entraram num povoado samaritano para lhe fazer os preparativos; mas o povo dali não o recebeu porque se notava em seu semblante que ele ia para Jerusalém. Ao verem isso, os discípulos Tiago e João perguntaram: "Senhor, queres que façamos cair fogo do céu para destruí-los"? Mas Jesus, voltando-se, os repreendeu, dizendo: "Vocês não sabem de que espécie de espírito são, pois o Filho do homem não veio para destruir a vida dos homens, mas para salvá-los"; e foram para outro povoado (Lucas 9:52-56).
Toda a pessoa tem direito à liberdade de pensamento, de consciência e de religião; este direito implica a liberdade de mudar de religião ou de convicção, assim como a liberdade de manifestar a religião ou convicção, sozinho ou em comum, tanto em público como em privado, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pelos ritos” (Declaração Universal dos Direitos Humanos, Artigo 18). 

Começo essa palestra com um tom confessional. Quero confessar o meu pertencimento a uma religião marcada por varias contradições. Sim, a história do Cristianismo, religião a qual pertenço, é uma historia marcada pela busca da compreensão do outro, pela defesa dos menos favorecidos, pela luta por justiça, pelo respeito às diferenças, pelo amparo aos sofredores do mundo; mas também, tenho que confessar, é uma história marcada por perseguição, pela dor, pelo sofrimento e por sangue, muito sangue! 

Mas não estou, nesse momento, me referindo ao sangue dos chamados mártires da fé: Aqueles que, de acordo com nossa tradição, tiveram suas vidas dizimadas simplesmente por crerem em Jesus de Nazaré. Desses falamos sempre. Ao contrário, estou me referindo ao sangue, ao sofrimento e a dor daqueles que foram mortos, perseguidos ou humilhados, por simplesmente recusarem a se submeter à fé cristã, em diversos momentos de nossa historia. Entre esses posso falar desde os pagãos que presenciaram a transformação do cristianismo em religião oficial do império romano durante os séculos IV e V, as mulheres queimadas sob a acusação de bruxaria na idade média, aos hereges que recusavam a submissão à religião oficial mesmo depois da Idade Média, os negros trazidos da África para a América que insistiram em suas praticas religiosas originais, aos índios do novo continente, entre eles, o imperador inca, Atahualpa, morto por Pizarro depois de rejeitar o cristianismo abraçado pelos espanhóis. 

Sim, essa é uma face horrível e estranha do cristianismo, não posso negar! Diante dessa realidade incontestável, somos obrigados a perguntar: o que faz com que uma única religião assuma faces tão distintas e tão estranhas? Quais são os fundamentos de ações tão contraditórias? Sendo Cristo um pacifista, defensor dos direitos humanos, defensor da vida, alguém desprovido de qualquer preconceito ou ódio de qualquer natureza, como poderia uma religião nascida de alguém dessa natureza, assumir formas tão discrepantes? 

Garanto que, no momento, não tenho muitas respostas. Entretanto, gostaria de me deter em algo que acredito ser fundamental em uma discussão dessa natureza: a chave hermenêutica. Ou seja, perspectiva a partir da qual cada grupo que se identifica como cristão interpreta as Escrituras e se orienta. 

Diria que, desde os tempos dos apóstolos o cristianismo teve que lidar com o que chamamos de Antigo e Novo Testamento. No primeiro, um conjunto de 39 livros (nas Bíblias protestantes) que narram desde a origem do mundo, o surgimento da humanidade, o aparecimento de Abraão e a escravidão no Egito de sua família, a saída do povo hebreu do Egito, a passagem desse povo pelo deserto da Arábia, a invasão de Canaã e a destruição ou dominação dos cananeus pelos hebreus, o estabelecimento e consolidação de um reino hebreu em Canaã (atual Palestina), a decadência do reino hebreu e sua dominação sob os babilônios, o pós-cativeiro babilônico e a restauração parcial do reino hebreu durante o império persa, povos que subjugaram o reino babilônico. 

O Novo Testamento, por sua vez, começa com uma biografia de Cristo, contem um livro que conta a historia do inicio e expansão da igreja, as cartas doutrinarias e um livro de profecia. Aparentemente esses dois testamentos se completam, entretanto, existem diferenças de cosmovisão em seus dois principais personagens: Cristo e Moisés. 

 A PERSPECTIVA DE MOISÉS 

Moisés escreveu seus livros no calor do deserto, enquanto liderava o povo em direção a Canaã. Segundo o escritor hebreu Flávio Josefo, Moisés possuía uma sólida formação egípcia, militar inclusive, tanto que sua primeira ação ao sair do Egito foi organizar um exercito com 600 mil homens. A intenção de Moisés era expulsar os moradores da Palestina e implantar ali um reino teocrático com uma solida organização religiosa, onde seria proibida qualquer outra manifestação de crença, senão aquela orientada pelos sacerdotes. A lei mosaica, em parte muito próxima do Código de Hamurabi, por sinal, contem regras rígidas na organização social, politica e religiosa da nação idealizada por Moisés. 

Como o historiador estuda o homem no seu tempo e o teólogo busca compreender o texto dentro de seu contexto, entendo que é preciso compreender Moisés dentro de sua própria realidade e época. Nessa perspectiva, em meio a povos politeístas, implantar um reino monoteísta exigia uma boa dose de força. Até porque o próprio povo hebreu não era exclusivista em sua forma de praticar a religião. Tanto que o que mais motivou o surgimento da profecia em Israel foi o espirito politeísta e inclusivista do povo hebreu. Toda vez que a religião pendia para o ensino de Moisés, os profetas passavam quase despercebidos; toda vez que o povo se tornava mais inclusivista, os profetas se levantavam para chamá-los ao arrependimento. 

Ou seja, o ideal era de uma religião exclusivista, que continha em suas regras a punição para os que transgredissem essa pratica, por colocarem em risco a organização social da nação, inclusive. Outras religiões deveriam não apenas não ser praticadas, mas, nem mesmo, toleradas. Dentro desse contexto, as praticas religiosas estavam intrinsecamente ligadas às praticas sociais, de forma que havia punições previstas em todas as áreas da vida. Vejamos alguns exemplos: 

• “Não deixem viver a feiticeira” (Êxodo 22:18).
• “Se um homem cometer adultério com a mulher de outro homem, com a mulher de seu próximo, tanto o adúltero quanto a adúltera terão que ser executados” (Levítico 20:10). 
• “Se o ladrão que for pego arrombando for ferido e morrer, quem o feriu não será culpado de homicídio [...]” (Êxodo 22:2). 
• "Se um homem tiver relações sexuais com um animal, terá que ser executado, e vocês matarão também o animal” (Levítico 20:15). 
• "Se um homem se deitar com outro homem como quem se deita com uma mulher, ambos praticaram um ato repugnante. Terão que ser executados, pois merecem a mor-te” (Levítico 20:13). 
• "Se alguém amaldiçoar seu pai ou sua mãe, terá que ser executado. Por ter amaldiçoa¬do o seu pai ou a sua mãe, merece a morte” (Levítico 20:09). 
• "Os homens ou mulheres que, entre vocês, forem médiuns ou consultarem os espíritos, terão que ser executados. Serão apedrejados, pois merecem a morte" (Levítico 20:10). 

Esses são apenas alguns poucos exemplos. Uma questão importante é que todas essas penas dizem respeito apenas aos hebreus e não tinham a intenção de impor isso sobre os outros povos. Entretanto, Jorge Pinheiro (2007, p. 63) nos informa que a particularidade desejada por Moisés só começou a encontrar espaço entre os judeus a partir dos profetas e, principalmente, no pós-cativeiro Babilônico, após o surgimento de Esdras e Neemias. Durante todo o período que vai da invasão de Canaã ao cativeiro babilônico no VI século antes de Cristo, o povo foi politeísta a maior parte do tempo. 

 A PERSPECTIVA DE CRISTO 

Ao contrario de Moisés, a mensagem de Cristo é universal, por isso ela se caracteriza pela compreensão, pela compaixão, pela misericórdia, pelo respeito à dignidade e liberdade humanas, enfim, pelo amor incondicional. Nesse sentido, algo a se considerar é a percepção de que os tempos de Cristo, diferente dos tempos de Moisés, estavam marcados por mudanças significativas no mundo do Mediterrâneo. Desde o século VI antes de Cristo, os hebreus viveram sob o domínio babilônico, persa, grego, e agora, romano. 

A cultura grega havia se espalhado por todo o mediterrâneo, afetando a forma de vida de todos os povos e, os hebreus, por sua vez, haviam vivenciado todo esse processo de mudanças. Eram novos tempos. A fé que Cristo pregou tinha como objetivo o alcance não apenas de uma tribo, ou um povo em particular, mas toda a humanidade. Dessa forma, essa percepção do divino, apesar de ter como fundamento os textos do Antigo Testamento, faz emergir dele uma visão depurada dos elementos absolutos e impositivos da Lei mosaica, enquanto se valorizou a ideia de liberdade, voluntariedade e respeito pela integridade do ser humano. 

Diferente de Moisés, Cristo não tinha a intenção de fundar uma teocracia nem impor uma religião. Sua mensagem é chamada de “boas novas”, e seu núcleo principal é o que chamamos de “Sermão do Monte" (MATEUS, capítulos 5 a 7), onde, ao contrario de Moisés, ele nos ensina a amar os nossos inimigos, bendizer os que nos maldizem, e orar pelos que nos perseguem. 

Sua forma de ver a relação do ser humano com Deus, fez com que ele elogiasse a atitude da Rainha de Sabá, uma rainha africana, comesse com publicanos e pecadores, impedisse o julgamento e a condenação sumaria de uma mulher acusada de adultério, dividisse o pão com os pobres, e, na hora de usar um exemplo máximo do amor ao próximo, citasse a atitude de um samaritano, um praticante de um culto rival do culto judaico em Jerusalém. 

A IGREJA OSCILANTE 

Dessa forma, esses elementos nos permitem afirmar que o que vemos ao longo da historia é uma igreja que oscila entre Cristo e Moisés. Quando ela está mais para Moisés, aparecem as ideias de Estado Teocrático, de uniformização da sociedade, de imposição da fé, de Inquisição, de caça às bruxas, Escravidão negra, de limitação das liberdades individuais, de desrespeito aos diretos dos indivíduos, Teologia da Prosperidade, de barganha com Deus. Todas essas coisas que só podem ser sustentadas a partir de uma leitura equivocada do Antigo Testamento. 

Entretanto, quando o pendulo oscila em direção a Cristo, vemos o ressurgimento de uma visão mais ampla de respeito aos direitos individuais, de defesa das liberdades, de suspensão do moralismo, da voluntariedade, da compreensão do ser humano e suas complexidades e problemáticas, da defesa da justiça, da defesa e proteção dos mais vulneráveis na sociedade, da aceitação das diferenças, da repartição do pão. 

Quando Moisés está em alta, não temos problemas em queimar a Biblioteca de Alexandria, começam a surgir os manuais de inquisição, surgem os Pizarros, as ditaduras em nome de Deus; somente quando Moisés está em alta é possível as perseguições aos que pensam diferente, ou as destruições dos Terreiros de Candomblé, para citar um exemplo mais próximo de nós. 
Entretanto, quando Cristo está em alta, surgem os Franciscos de Assis, os Bartolomé de Las Casas, os Luther King, os Mahatma Gandhi. Somente quando Cristo está em alta acontecem o respeito aos que são diferentes, que creem diferente; acontecem também, por mãos evangélicas, as reconstruções dos Terreiros de Candomblé destruídos pelos fanatismos que ameaçam a civilização (1).  

O objetivo aqui não é negar a importância de Moisés, mas dizer que somente olhando Moisés com os olhos de Cristo, poderemos compreender a essência da fé Cristã e sua vocação para o respeito, para a paz e para a vida. Afinal, uma das frases mais impactantes do sermão do monte é “Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5:9). 

Para encerrar essa fala gostaria de citar duas frases que considero extremamente importantes nesta reflexão. Em primeiro lugar, Voltaire, quando lucidamente questiona os fanáticos franceses do século XVIII: 
Sabes que a intolerância só produz hipócritas ou rebeldes: que funesta alternativa! Finalmente, pretendes sustentar por meio de algozes a religião de um Deus que morreu por meio de algozes e que não pregou senão a amabilidade e a paciência”? (2017, p. 63). 
 Por ultimo, Jesus Cristo, quando chama Pedro de volta à razão: “[...] Pedro: guarde a espada!” (João 18:11). 


  1. Um caso acontecido no Estado do Rio de Janeiro e noticiado pela BBC em abril de 2018. https://www.bbc.com/portuguese/brasil-43879422  

  • Texto apresentado durante Mesa Redonda sobre Religião e Direitos Humanos, no IV SINTEPE (Simpósio de Integração Ensino Pesquisa e Extensão) na UNEB – Universidade do Estado da Bahia – Campus XVII, Eunápolis – Bahia, no dia 29/11/2018.
  • Gilvan Monteiro da Rocha é Graduado em História pela UNEB (Universidade do Estado da Bahia) , Graduado em Teologia pelo CETADEB (Centro Educacional Teológico das Assembleias de Deus no Brasil), Pós-graduando em Educação e Interculturalidade pelo IFBA – Instituto Federal do Estado da Bahia – Campus Porto Seguro, professor no Centro de Educação Profissional da Costa do Descobrimento – Eunápolis - BA, Pastor da Comunidade Cristã Nova Vida.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 
Bíblia Nova Versão Internacional 
Declaração Universal dos Direitos Humanos. Disponível em: https://nacoesunidas.org/wp-content/uploads/2018/10/DUDH.pdf Acesso em 28/11/2018. 
FAVRE, Henry. A civilização Inca. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1972. 
JOSEFO, Flávio: História dos Hebreus. Rio de Janeiro: CPAD, 2000. 
PINHEIRO, Jorge. História e religião de Israel: origem e crise do pensamento judaico. São Paulo: Editora vida, 2007. 
VOLTAIRE. Tratado sobre a Tolerância. São Paulo: Lafonte, 2017.

Imagem disponível em: https://www.dnoticias.pt/pais/portugal-tem-bom-curriculo-nos-direitos-humanos-mas-violacoes-persistem-HJ3649081 02/04/2019

sexta-feira, 17 de abril de 2015

A TEOLOGIA DA PROSPERIDADE E O CULTO AO AMOR-PRÓPRIO (VERSÃO AMPLIADA)


 Por G. M. Rocha
No início do mês de abril deste ano de 2015, encontrei no portão de minha casa um panfleto da Igreja Internacional da Graça que trazia como título, “OFERTA ALÇADA AO SENHOR”. Abaixo do título principal, havia um quadro com uma relação de sete motivos que o indivíduo teria para contribuir financeiramente com a igreja e trazia em letras maiúsculas com destaque para o número 7, o seguinte subtítulo “AS 7 LEIS DA SEMEADURA”, que na verdade buscava elencar 7 vantagens para o contribuinte, todas com afirmações bíblicas, numa clara tentativa de dar legitimidade a essas “leis”. Ao lado, um texto buscava resumir a questão na seguinte frase: “O Dízimo proporciona proteção. A Oferta Alçada igual ou superior ao Dízimo multiplica o que você tem e todo o seu patrimônio já cresce protegido”.

Para um atento leitor das Escrituras Sagradas, que ouve ou lê um desses discursos apelativos dos pregadores da Teologia da Prosperidade carregado de um apelo ao amor-próprio dos seus ouvintes, não é difícil identificar como esses “bondosos senhores” estão levando até às últimas consequências a sua análise sobre as verdadeiras motivações das ações dos indivíduos e de como conseguir com maior facilidade que se interessem por alguma causa. O que acontece é que apesar de usarem sempre a Bíblia na tentativa de sustentar e legitimar o discurso que fazem, na verdade, o que fundamenta suas afirmações são os princípios que estão na base do Liberalismo e Neoliberalismo econômico, conforme se pode observar na extensa obra de Adam Smith, A Riqueza das Nações. 

Esse autor do século XVIII, ao analisar a sociedade europeia na fase inicial da Revolução Industrial, observa que existem pelo menos três formas de se conseguir que alguém faça aquilo que queremos: ou através da bajulação, como fazem os cães de estimação quando querem que seus senhores lhes repartam o jantar, ou esperando pela benevolência dos indivíduos, ou apelando para o seu amor-próprio. Para o autor, no entanto, esta última é a maneira mais segura de conseguirmos o que queremos, principalmente quando se trata de uma sociedade civilizada. No volume I do seu livro ele coloca a questão nos seguintes termos:

  • Numa sociedade civilizada, ele (O homem) necessita constantemente da ajuda e cooperação de uma multidão de gente, e sua vida inteira mal é suficiente para conquistar a amizade de umas poucas pessoas. Em quase todas as outras espécies animais, cada indivíduo, ao atingir a maturidade, torna-se inteiramente independente e, em sua situação normal, não precisa de ajuda de qualquer outra criatura viva. Mas o homem quase sempre precisa da ajuda de seus semelhantes, e seria vão esperar obtê-la somente da benevolência. Terá maiores chances de conseguir o que quer se puder interessar o amor-próprio deles a seu favor e convence-los de que terão vantagem em fazer o que deles pretende. Todos os que oferecem a outro qualquer espécie de trato propõe-se fazer isso. Dê-me aquilo que eu desejo, e terás isto que desejas, é o significado de todas as propostas desse gênero e é dessa maneira que nós obtemos uns dos outros a grande maioria dos favores e serviços de que necessitamos. Não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da consideração que eles têm pelos próprios interesses. Apelamos não à humanidade, mas ao amor-próprio, e nunca falamos de nossas necessidades, mas das vantagens que eles podem obter (Volume I, p. 20). 

Percebam que o autor não afirma que esta seja a única maneira de se conseguir as coisas, mas aquela com maior garantia de sucesso, e, nesse caso, não seria muito afirmar que esta ideia está no centro de todas as formas de organizações do atual sistema capitalista. O nosso modelo econômico explorou até a últimas consequências essa forma de lidar com as pessoas no mundo globalizado. Todas as empresas, todas as campanhas de marketing, todas as atividades econômicas e até as relações pessoais se orientam pela necessidade diária de um apelo ao amor-próprio de cada indivíduo, sob o risco de ficar com suas mercadorias encalhadas nas prateleiras, ou se romper com determinados laços sociais, caso se espere que as pessoas comprem ou ajam motivadas apenas por suas necessidades reais, ou por um ato de benevolência para com os vendedores ou as pessoas ao seu redor. 

Desta forma é preciso não falar dos perigos dos juros absurdos embutidos nas prestações, mas da facilidade da compra parcelada, nunca se fala do perigo do endividamento, mas da felicidade de se assistir um programa numa TV de 52 polegadas, ou dirigir um carro do ano, nunca se mostra as misérias causadas pelo uso das bebidas alcoólicas, mas a felicidade de se tomar uma cerveja à beira de uma piscina rodeada de mulheres bonitas, pois é preciso mover o indivíduo a partir do que ele tem de bom apenas para si mesmo, o amor-próprio, sem se importar com o interesse do outro, do próximo. 

Como se percebe, esse tipo de abordagem é completamente oposto ao que ensina o Novo Testamento, onde tanto Cristo como os apóstolos insistem na necessidade da ação desinteressada da parte dos cristãos. Para eles a força motora das pessoas que creem em Deus deve ser não o amor-próprio, mas o “amar a Deus acima de tudo e ao próximo como a si mesmo”. O que o ensino das Escrituras nos apontam, é que a humanidade estará sempre em risco, todas as vezes que o amor a si mesmo esteja acima do amor a Deus e ao próximo. 

Dessa forma, o que se espera de todo cristão não é uma ação motivada pela busca do seu próprio interesse, mas pela benevolência desinteressada. Porém, aqui estão as grandes questões que se impõem como grandes desafios à grande parte dos líderes evangélicos no Brasil: como conseguir realizar obras grandiosas, construir templos faraônicos (ou salomônicos, como queiram), manter o padrão de vida desejado por pregadores e pastores que se dizem filhos do rei e príncipes de Deus, esperando apenas pelas contribuições provindas do altruísmo e da generosidade dos pragmáticos cristãos pós-modernos? Para aqueles ministros que aceitam viver modestamente e não tem sonhos (ou fantasias) de se construir grandes e caras catedrais, de viver uma vida luxuosa, de possuir um jatinho particular, exibir roupas de grifes ou frequentar restaurantes requintados, talvez seja possível se manter pregando o Evangelho contando apenas com a generosidade de alguns poucos cristãos, ou às próprias custas. 


No entanto, os novos tempos se mostram um tanto nebulosos para aqueles que querem realizar coisas fantásticas, caso não apelem para o egoísmo e o amor-próprio dos frequentadores de igrejas. Desta forma, os pregadores são chamados a decidir entre as observações de Adam Smith e o ensino de Cristo, entre o contentamento e a ganancia, entre a Bíblia e A Riqueza das Nações. 

Pelo visto, grande parte dos líderes de igrejas não teve dúvidas e optou por um discurso mais pragmático, com garantias mais imediata de sucesso, pois, afinal de contas, boa parte das pessoas não está mais em busca do que é certo, mas do que dá certo, não está em busca de uma verdade, mas de obterem a qualquer custo o que desejam ou o que foram programadas para desejar. 

Diante disto, não há nada mais incomodo para quem tenha um pouco de noção do que a Sagrada Escritura nos ensina sobre dízimos e ofertas, do que ver a forma abusiva e opressora com que muitas instituições ditas evangélicas abordam o assunto em suas reuniões diárias. O que a maioria das pessoas não se dá conta é que essa abordagem nada tem a ver com o ensino ortodoxo da fé cristã, mas com um modelo introduzido no meio cristão desde a segunda metade do século passado, a partir do movimento da fé (Hanegraaff, 1996) surgido do movimento pentecostal nos EUA e difundido no Brasil a partir de 1980 pelo chamado Neopentecostalismo (Mariano,1999), uma abordagem sobre dinheiro que foge completamente do ensino neotestamentario ao mesmo tempo em que se aproxima da logica imposta pelo neoliberalismo econômico, com fortes fundamentos nas observações de Adam Smith. 

É preciso que se diga, no entanto, que quer seja entre católicos ou protestantes o dízimo sempre foi uma forma de se financiar os projetos dessas instituições. Apesar de os equívocos sobre a interpretação do livro de Malaquias fazer parte do ensino de quase todas as denominações, mesmo as mais conservadoras, foi a partir de Oral Roberts e Kenneth Hagin dois pregadores norte-americanos, que segundo Ricardo Mariano (1999) teve início um apelo sistemático para que as pessoas contribuíssem com os projetos da igreja, sob a promessa de se alcançar a prosperidade financeira. 

Dessa forma, não é mais da generosidade ou altruísmo dos fiéis que se espera as contribuições, mas do apelo ao amor-próprio dos cristãos como forma de se aumentar a arrecadação dos dízimos e das generosas ofertas sob o argumento de que os contribuintes seriam os maiores beneficiados nessas transações. Uma questão relacionada à pregação de Oral Roberts, citada por Ricardo Mariano, diz respeito ao que motivou a nova proposta de arrecadação, que foi o aumento das despesas com o tempo de TV, motivada pela competição dos próprios televangelistas nos Estados Unidos na década de 60 (Mariano, 1999, p. 152). 

Esta questão está também muito presente entre os pregadores da Teologia da Prosperidade no Brasil. O que está posto em todas as instituições cujos pregadores apelam para essa nova teologia é exatamente os projetos extravagantes que exigem grande quantidade de dinheiro para se realizar, o desejo de sucesso pessoal da liderança, e a ostentação de um estilo de vida que somente uma pequena parte de bem-aventurados conseguem alcançar, no mundo globalizado. Perguntem, quantas pessoas podem comprar um jatinho particular, possuir um helicóptero, morar em uma mansão, se hospedar em hotéis 5 estrelas, fazer viagem anual à Israel, e não será difícil se constatar que esses luxos estão reservados apenas a uns poucos “semideuses” que habitam o nosso planeta. 

Todavia, os pregadores da prosperidade, estando em um grande centro, nas periferias das grandes cidades, ou no interior, já começam o ministério almejando alcançar essas realizações alardeadas pelos que conseguiram o auge da “bem-sucedida carreira”. Quem já alcançou o sucesso serve de inspiração aos aspirantes que desde as maiores até as mais pobres igrejas mergulham os crentes em campanhas ininterruptas, espremendo-os o máximo que podem, para doarem até o último centavo. 

Porém, esses bons discípulos da sociedade neoliberal nunca revelam aos crentes suas verdadeiras intenções. O que fazem da forma mais cínica possível é afirmarem que toda vez que esses crentes seguirem obedientemente suas receitas prontas sobre as ofertas estipuladas, se colocarão em posição de serem abençoados por Deus e conseguirão realizar os seus sonhos mais impossíveis. Assim, enquanto o Valdemiro Santiago convida os seus telespectadores a doarem os dízimos do salário que desejavam ter no ano seguinte, afirmando que quem ganhasse mil reais e quisesse um salário de três mil deveria entregar um dízimo antecipado de trezentos reais, O Silas Malafaia estourava a garganta para convencer as pessoas que queriam “conquistar” a casa própria a doar o valor de um aluguel para o seu programa para alcançar o milagre, outro pregador um tanto mais grosseiro insistia que quem comprasse um quilo de cimento “ungido” em sua campanha teria a garantia do milagre da prosperidade ao incluir aquele produto na massa da construção do seu ponto comercial, por exemplo. 

Desta forma o que se pode perceber em cada um desses discursos é o fato de todos esses indivíduos que se auto intitulam de “homens de Deus” jamais apelarem ao altruísmo cristão, ou à benevolência; jamais falam dos próprios benefícios que desejam obter nessas transações ou dos seus desejos ocultos de desfrutarem de uma vida luxuosa as custas dos desinformados; jamais mostram que os templos luxuosos que constroem nada têm a ver com os ensinos de Cristo, mas com seus desejos pessoais de se destacarem no competitivo mercado religioso como homens de grandes realizações; jamais ensinam aos cristãos que essas campanhas têm apenas a função de alimentar nas pessoas um desejo de alcançar um sucesso que jamais passarão disso, desejo, e que quem lucra de verdade nessas transações são os pregadores, que enquanto incentivam os crentes a esperarem um milagre, eles mesmos, pragmáticos que são, não esperam milagre algum, antes se apossam sem nenhuma misericórdia e com toda a voracidade dos dízimos e ofertas das pessoas mais miseráveis possíveis e se enriquecem vendendo ilusões em nome de Deus. 

Assim, por mais que tentem argumentar, esses indivíduos não servem a Deus, mas servem ao sistema capitalista; não amam as pessoas, mas amam ao dinheiro; não estão comprometidos com a pregação do evangelho, mas com a sociedade de consumo; não estão preocupados em ajudar a formar um mundo mais generoso e solidário, mas um mundo egoísta e individualista, e dessa forma, esses pregadores não são discípulos de Cristo, mas escravos das suas próprias ambições. E assim, enquanto o amor-próprio é cultuado em suas reuniões, a Palavra de Deus é adulterada, o povo é enganado, a verdade do evangelho é completamente desprezada, Deus é rejeitado e Mamom, entronizado. 

BIBLIOGRAFIA 
HANEGRAAFF, Hank. Cristianismo em Crise. Rio de Janeiro: CPAD, 1996. 
MARIANO, Ricardo. Neopentecostais – Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil. São Paulo: Edições Loiola, 1999. 
SMITH, Adam. A Riqueza das Nações, Volume I. São Paulo: Martins Fontes, 2003.


quinta-feira, 31 de outubro de 2013

PENSANDO A REFORMA PROTESTANTE


Por G. M. Rocha

Hoje se completam 496 anos da Reforma Protestante. As teses de Lutero nos mostram que a venda de indulgencias foi o que podemos chamar de "estopim" do movimento de reforma. 
As pessoas estavam sendo induzidas a acreditar que assim que a moeda tilintasse nos cofres da igreja, uma alma voaria do purgatório. 
Na verdade, os vendedores de indulgencias estavam se aproveitando do temor que as pessoas tinham de irem para o inferno, e passaram a ganhar muito dinheiro, vendendo-lhes os céus. 

Em outras palavras, a religião arrecadava muito dinheiro explorando o medo das pessoas e os religiosos exerciam muito poder e controle sobre as pobres almas ignorantes.

E a pergunta que fazemos olhando o cenário evangélico atual é: O que mudou? o que permanece?
Pelo visto, mudaram-se o cenário; mudaram-se os atores; mudaram-se as causas do medo... Permanece a ganancia, a exploração dos diversos medos criados em nossa sociedade, o enriquecimento de lideres religiosos as custas de uma massa ignorante e acéfala.

Antes da Reforma, o povo não tinha direito à leitura das Escrituras e se tornaram massa de manobra nas mãos do clero católico, mas o que mudou? Temos a Bíblia, cada casa tem no mínimo uma completa ou pelo menos o Novo Testamento, mas mesmo assim temos um povo manipulado, ensandecido e alienado, e tudo isto porque apesar de termos a Bíblia não a lemos, e quando a lemos, lemos com os olhos condicionados pela interpretação dos que querem nos explorar e nos manter presos ao tronco da ignorância.

Resultado de tudo isto? Uma geração dominada pelo medo. Medo de "tocar nos ungidos do Senhor", sem perceber que para o Novo Testamento "ungido" não se trata de uma classe privilegiada, mas de todos os que acreditam em Cristo; e ainda, sem perceber que os indivíduos que usam esse termo, está na verdade, tentando se blindar para impedir que as pessoas se levantem contra o desmando deles. 

Mas não é só isto, temos medo que esses que se dizem ungidos tenham de fato o poder de nos amaldiçoar e assim as pessoas, como gado indefeso se deixa levar para qualquer lugar que interesse a esses "ungidos".
Somos uma geração que teme. Teme o tal de "devorador", uma especie de inimigo invocado pelos lideres para obrigar as pessoas a contribuírem com os seus dízimos, sob a pena de não conseguirem prosperar, ou de padecerem sob diversas doenças que o "Senhor" permitirá aos que não forem" fiéis" nesse quesito;

E ainda, somos uma geração que tem medo de que a família chegue ao fim, e não percebemos o quanto esse medo pode estar sendo usado por muitos, afim de que venhamos continuar elegendo políticos desonestos e corruptos pelo simples fato de ter um nome de "evangélicos" e posarem de "defensores da moral";
Poderia citar muitos outros exemplos de como o medo continua sendo uma poderosa arma nas mãos da religião evangélica no Brasil para oprimir, controlar, manipular e mentir em nome de Deus. 

Lamentável, mas somos uma geração de cristãos movida pelo medo, medo esse que os espertalhões usam sem nenhum escrúpulo para nos explorar, nos enganar, nos manter cativos e, pior de tudo, envergonhar o Evangelho de Cristo.
Assim, não somos uma geração que teme o inferno, por isso não estão mais nos vendendo o céu. O que tememos? Tememos não prosperar, não ter status; tememos as doenças, a violência; tememos o não ser competitivo. Por isto a moda é vender auto-realização, bençãos automáticas, prosperidades que aconteçam assim que as notas (não mais as moedas) caírem nos cofres das instituições.

Sei que ainda existem exceções, mas para mim esse dia da Reforma, pelo menos no caso do Brasil, tem pouco para se comemorar e muito para se indignar, para protestar, para confrontar, afim de que levantemos uma nova geração que crê em Deus, mas não se permite, nem por um único momento, se prostrar diante dos caprichos da religião.

Que Deus nos ajude!

sábado, 19 de outubro de 2013

MANIPULADORES DE "SUCESSO": ALGUMAS HIPÓTESES

Por G. M. Rocha

Por que muitos manipuladores continuam se dando bem? 
Tenho pensado em algumas hipóteses sobre esta questão e gostaria de compartilhá-las. O que se percebe é que os manipuladores geralmente usam um método infalível (?) no convencimento de pessoas fragilizadas, interesseiras ou ignorantes. Poderíamos chamar esse método de “os quatro passos da manipulação”, que são os seguintes:

Em primeiro lugar, enfatizam exageradamente os problemas que afligem quase todas as pessoas, até gerar no indivíduo o desespero e o sentimento de desamparo. Em outras palavras, dão um zoom nos problemas. (É preciso fazer o indivíduo se sentir achatado, esmagado e impotente diante do peso imaginário do problema; é preciso criar o sentimento de desamparo do sujeito); 

Em segundo lugar, usam de todos os meios para que os indivíduos não percebam as causas reais de seus problemas (é preciso desviar a atenção, desfocar.); 

Terceiro, elegem um inimigo imaginário "causador de todos os males" e o atacam com toda a força para se passarem por pessoas audaciosas e ousadas, para impressionar as pessoas com uma suposta autoridade no combate ao “mal”, passando a ideia de que são os defensores dos que sofrem ou da justiça, ou da verdade, ou do bem comum. 
Para fundamentar esta questão, basta que citemos alguns exemplos bem recentes: A igreja católica já elegeu hereges e bruxas, Hitler elegeu os Judeus, os militares no Brasil elegeram o comunismo para justificar o golpe de 64, Os Estados Unidos têm elegido os muçulmanos e, muitos evangélicos no Brasil elegeram o diabo, o candomblé e agora, já estão elegendo os gays e sabe-se-lá quem serão os próximos candidatos...; 

Finalmente, os espertalhões se fazem passar por únicos detentores dos segredos que podem levar todos a triunfarem sobre os inimigos cuidadosamente eleitos. A partir desse momento, todos os que aceitaram a sugestão tendem a se transformar em eternos dependentes, entrando em um eterno círculo vicioso, do qual, provavelmente, jamais sairão até que gastem o último centavo. 
E o resultado? Sucesso total! Não o sucesso dos que acreditam nessas quimeras, mas o sucesso dos que inventaram a fórmula mágica (a maioria dos vendedores de ilusão tem acumulado muita riqueza em tempo record). 
E Sabe qual a razão do sucesso desses vendedores de ilusões? Não faltam pessoas fragilizadas em busca de uma fuga da realidade e dispostas a abraçar qualquer promessa de sucesso instantâneo, sem muito esforço... O pior de tudo é que essas pessoas se tornam tão dependentes dessas fórmulas mágicas que não se dão conta de que estão passando pela vida tentando agarrar sombras, ou como o cão que corre atrás do próprio rabo... 

Quer saber? O mundo é louco! Fazer o que?

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

A "MALDIÇÃO DE CAM", UM EQUÍVOCO MALDITO

Por G.M.Rocha É possível que ao se estudar a história de praticamente todos os povos, há de se perceber que em cada momento em que algum povo impôs sobre outro o seu domínio, se buscou de alguma forma, meios e argumentos para se justificar e legitimar suas ações, por mais bárbaro e violento que possa ter sido tal processo. Os argumentos são muitos: civilizar, suprimir o bárbaro, promover guerras justas, libertar povos oprimidos, levar a religião verdadeira, dentre outras tantas. Se buscarmos na história ocidental nos últimos quinhentos anos não é difícil perceber que os argumentos para justificar, legitimar e naturalizar o brutal processo que foi a escravidão negra, a colonização da América e o imperialismo europeu na África e em outras partes do mundo a partir do século XIX, o que ocasionou problemas desastrosos para esses diversos povos, contou com diversos argumentos vindos da política, da filosofia, da ciência, e assustadoramente da religião cristã. É desta forma que a chamada “maldição de Cam” que custou desde o século XVI a vida de milhões de indivíduos no processo de escravidão negra, é ainda hoje um instrumento ideológico que serve para “explicar” as causas dos males sofridos pelos africanos e seus descendentes e, por outro lado, legitimar a sua opressão e dominação. Anderson Ribeiro Oliva em um artigo sobre o ensino intitulado “A História da África nos bancos escolares. Representações e imprecisões na literatura didática” faz uma importante discussão sobre como o imaginário europeu que prevalecia no final do século XV quando do contato com povos da costa africana no momento em que portugueses costeavam o continente no objetivo de encontrar um novo caminho para as Índias, era resultado de uma construção preconceituosa e equivocada construída ao longo de um período de 1500 anos, desde Heródoto no século V antes de Cristo, passando por Cláudio Ptolomeu no século II d. C, as encíclicas papais Dum Diversas e Romanus Pontifex emitidas no final do século XV que ‘deram direito aos Reis de Portugal de despojar e escravizar eternamente os Maometanos, pagãos e povos pretos em geral’ (Oliva, p. 436, in Lopes, 1995: 22), e o que diz respeito ao nosso assunto, a suposta maldição de Cam, a respeito de que Oliva, fazendo menção à ideia cartográfica da Europa no inicio do século XVI, observa que os europeus acreditavam que: O paraíso terrestre aparecia sempre ao Norte, no topo, distante dos homens, e Jerusalém, local da ascensão do filho de Deus aos céus, no centro. A Europa, cuja população descendia de Jafet, primogênito de Noé, ficava à esquerda (do observador) de Jerusalém e a Ásia, local dos filhos de Sem, netos de Noé, à direita. Ao Sul aparece ‘o continente negro e monstruoso, a África. Suas gentes eram descendentes de Cam, o mais moreno dos filhos de Noé’ (Noronha, 2000:681-689). Neste caso, mais uma vez o desprestígio recobria a África. Segundo os textos bíblicos, Cam foi punido por flagrar seu pai nu e embriagado. Seus descendentes deveriam se tornar escravos dos descendentes de seus irmãos e habitar parte do território da Arábia, do Egito e da Etiópia. (Oliva, p. 435) O que chama a atenção aqui, é que o elemento religioso no texto aparece como sendo uma referencia ao texto bíblico, como se esse assunto estivesse de fato descrito dessa forma na Bíblia, o que não é o caso, como veremos mais à frente. A grande questão, no entanto, é que, apesar de sabermos que oficialmente todos esses discursos foram abandonados no último século, dando lugar a uma nova compreensão sobre o verdadeiro valor de cada povo, de cada cultura, no sentido de se criar uma consciência de respeito pelo diferente, uma vez que já se concluiu que não existem e nunca existiu povos nem culturas superiores, apenas povos e culturas diferentes, não é difícil no Brasil, no entanto, se encontrar entre indivíduos que dizem professar a fé cristã, a crença de que países como Estados Unidos e Inglaterra são ricos por acreditarem em Deus, e que africanos, por exemplo, são pobres por praticarem a religião dos orixás. Ou seja: na teoria, essas ideias foram abandonadas, na prática elas parecem prevalecer no imaginário de grande parte da população brasileira, o que, como se sabe, se constitui num grande equívoco, como resultado de um total desconhecimento do processo histórico do ocidente nos últimos quinhentos anos. Um desses equívocos reapareceu há poucos dias, em uma postagem feita pelo deputado federal Marco Feliciano a respeito dos possíveis motivos causadores dos diversos problemas enfrentados por diversos países do continente africano e que reascendeu a questão sobre um dos mais absurdos discursos já produzidos pela ideologia cristã para legitimar um dos mais vergonhosos produtos da ambição humana, que foi a escravidão negra. É claro que dias depois, após sua postagem ganhar destaque na mídia nacional e atrair a insatisfação de seguimentos ligados ao movimento gay e afro-descendentes, o deputado buscou se justificar dizendo que apenas havia citado uma linha de pensamento sobre o assunto, mas que essa não era a sua opinião a respeito da questão. Para quem vive no mundo evangélico, principalmente no mundo pentecostal, sabe que essa fala de Feliciano não é nenhuma novidade. Grande parte das pessoas acredita sim que os africanos são amaldiçoados, que os demônios a que a Bíblia se refere são os orixás e que a fome, a pobreza e a miséria na África tão divulgada pelos nossos missionários, têm origem nestas questões, ignorando que fome, pobreza e miséria não é apenas um problema africano, mas de todo o planeta. Milton Santos (2000) informa que a pobreza e a miséria que se alastra pelo planeta estão relacionadas às injustiças e desigualdade social do nosso modelo econômico capitalista, agravada pelo atual processo de globalização, legitimada por intelectuais contratados ou contatados, com o consentimento dos governos locais e a maestria do Banco Mundial que consegue convencer, através de ações isoladas no planeta, que existe uma preocupação em se criar meios de sua superação quando na verdade o que existe de fato são soluções localizadas que não resolvem o problema, apenas disfarça sua gravidade. Neste sentido ele afirma que: Essa produção maciça da pobreza aparece como fenômeno banal. Uma das grandes diferenças do ponto de vista ético é que a pobreza de agora surge, impõe-se e explica-se como algo natural e inevitável. Mas é uma pobreza produzida politicamente pelas empresas e instituições globais. Estas, de um lado, pagam para criar soluções localizadas, parcializadas, segmentadas, como é o caso do Banco Mundial, que, em diferentes partes do mundo, financia programas de atenção aos pobres, querendo passar a impressão de se interessar pelos desvalidos, quando, estruturalmente, é o grande produtor da pobreza. Atacam-se, funcionalmente, manifestações da pobreza, enquanto estruturalmente se cria a pobreza ao nível do mundo. E isso se dá com a colaboração ativa ou passiva dos governos nacionais. (Santos, 2000, p. 73) É claro que o autor quando chama a nossa atenção para a questão da pobreza, ele não se refere diretamente à questão africana, mas ao mundo de forma geral. O que acontece porem é que no que diz respeito ao continente africano sabemos que desde o século XVI europeus lhes roubaram ou, diamante, especiarias, recursos naturais e, o pior de tudo, lhes roubaram homens, vidas. Somente para o Brasil foram trazidos mais de cinco milhões de africanos (Prandi, 2000, p.1) e foi tão grande a brutalidade da escravidão que quando da abolição eles eram menos de um milhão em terras brasileiras, e, por outro lado, ainda hoje o vasto continente africano sofre as conseqüências desta ação desastrosa dos europeus. O que se pode dizer é que os africanos pobres podem tranquilamente agradecer aos cristãos ricos europeus por sua pobreza, enquanto os cristãos europeus ricos podem também agradecerem aos africanos de forma geral, por suas riquezas. Atribuir a pobreza na África ou em qualquer parte do mundo, inclusive no Brasil, à supostas maldições ou a supostos espíritos opressores, é no mínimo, fechar os olhos para a forma perversa como a pobreza tem sido produzida no planeta, uma verdadeira afronta aos que sofrem. Portanto, a ideia de uma suposta maldição como sendo a origem de todos esses males estaria assim, poderíamos dizer, descartada. Por outro lado, é bom que se diga que em mais de 170 anos de ensino de historia no Brasil , um país com fortes ligações com a África, somente a partir de 2003 é que se tornou obrigatório o ensino sobre o continente africano e, dez anos depois dessa obrigatoriedade, ainda é muito elementar o que se apresenta no livro didático sobre o assunto. O que a maioria dos evangélicos sabe sobre a África vem do que os missionários dizem, de algumas leituras não aprofundadas, ou do que assistem nos programas de TV onde não há nenhuma preocupação com o conhecimento histórico, apenas transmissão de informações isoladas. Portanto, diante deste quadro sinistro não se pode exigir muito de um brasileiro sem que se cometa alguma injustiça. No entanto, a postagem do deputado emitindo sua opinião ou não, nos leva inevitavelmente a uma questão: afinal, a ideia de que Noé amaldiçoou seu filho Cam está mesmo na Bíblia, ou se trata de uma interpretação equivocada do texto bíblico, motivada no passado por uma busca equivocada por um argumento religioso capaz de amenizar a consciência de indivíduos envolvidos numa empreitada tão brutal que foi a escravidão, e no presente alimentar o preconceito religioso relacionado a tudo o que diz respeito à África, preconceito este que atualmente ainda está tão presente em nosso país? Para uma reflexão sobre essas questões, faz se necessário citar o texto bíblico em sua íntegra. Vejamos então o que está escrito em Gêneses capítulo 9 versículos 24 a 27, em duas versões: “quando Noé acordou do efeito do vinho e descobriu o que seu filho caçula lhe havia feito, disse: ‘Maldito seja Canaã! Escravo de escravos será para os seus irmãos’. Disse ainda: ‘Bendito seja o Senhor Deus de Sem! E seja Canaã seu escravo. Amplie Deus o território de Jafé; habite ele nas tendas de Sem, e seja Canaã seu escravo’ (Nova Versão Internacional). Despertado que foi Noé do seu vinho, soube o que seu filho mais moço lhe fizera; e disse: Maldito seja Canaã, servo dos servos será de seus irmãos. Disse mais: Bendito seja o Senhor o Deus de Sem; e seja-lhe Canaã por servo. Alargue Deus a Jafé e Habite Jafé nas tendas de Sem; e seja-lhe Canaã por servo (Versão revisada da Tradução de João Ferreira de Almeida de acordo com os melhores textos em hebraico e grego). A análise deste texto nos sugere algumas perguntas, entre as quais podemos destacar: Por que uma pena tão pesada, como a maldição, para uma infração aparentemente tão simples? Por que os descentes de um indivíduo terão que pagar por um ato que seu foi pai quem cometeu? Por que no texto a pessoa amaldiçoada é chamada de Canaã se o que se acredita por quinhentos anos no Ocidente é que a pessoa amaldiçoada por Noé se chamava Cam? Por que Moisés cita esse acontecimento? Onde está então o equívoco? Apesar de se levantar aqui cinco questões, dentre outras que sejam possíveis numa análise deste texto, somente as três últimas serão analisadas aqui. Uma leitura de todo o capítulo 9 do Gênesis até o versículo 18, e todo o capítulo 10 junto com outros textos bíblicos, ajudam na compreensão do assunto. Em primeiro lugar, encontramos nos versículos 18 e 22 a informação de que Canaã era na verdade o filho mais novo de Cam, e este, por sua vez, era o filho mais novo de Noé. O mesmo texto também indica que quem viu a nudez de Noé foi Cam, porem, não se sabe por qual razão, Noé, ao invés de proferir a maldição sobre o Filho, acabou por proferi-la sobre o neto, nesse caso, Canaã. Canaã, de acordo os versículos 15 a 20 do capítulo 10 do Gênesis, gerou onze filhos, dos quais nove habitaram uma região que veio a ser chamada pelo seu nome, Canaã. Esses nove filhos, portanto, formaram nove nações conhecidas na Bíblia como Jebuseus, Amorreus, Jirgaseus, Heveus, Arqueus, Sineus, Arvadeus, Zemareus, Hemateus. Todos esses povos juntos foram chamados por Moisés de Cananeus. O que fica exposto no texto é que a maldição, portanto, caiu sobre o filho mais moço de Cam, Canaã, sendo transferida para nove dos filhos deste, sendo poupados apenas os dois mais velhos chamados pelos nomes de Hete e Sidom, pais dos Heteus e dos Sidônios. Em segundo lugar, é preciso que se diga que Moisés escreveu o livro do Gênesis estando à caminho de Canaã, com a intenção de conquistá-la. O povo que ele tirou do Egito, havia convivido com quase quatrocentos anos de escravidão, deveria estar ansioso por ter sua própria terra, mas ao mesmo tempo com sua auto-estima muito baixa. Era preciso, portanto, lhe dar informações que dariam sentido para sua existência, reconstruindo o seu passado glorioso, o que para alguns estudiosos se trata aqui como em muitos casos na antiguidade, de um mito de origem. Assim ele procura lhes mostrar que quando do encontro de Abraão seu ancestral, com Javé, esse jurou que daria à sua descendência a terra habitada pelos filhos de Canaã, na qual ele vivia, mas que num futuro distante, sendo que seus descendentes ficariam escravizados no Egito por quatrocentos anos, mas ao fim desses anos sua descendência haveria de retornar a Canaã para herdar aquela terra e, portanto, com esses escritos, Moisés injetava animo no coração dos hebreus e lhes dava um importante sentido para a conquista. Tudo estava claro: os hebreus, descendentes abençoados de Abraão conquistariam os cananeus, os descendentes amaldiçoados de Canaã, neto de Noé. Os povos amaldiçoados (cananeus) seriam então, suprimidos pelo povo abençoado (hebreus). O que está escrito nos livros históricos do Antigo Testamento é que, apesar de muitos desses povos terem sobrevivido à conquista, tendo muitos deles se tornado escravos dos hebreus, finalmente desapareceram com as guerras, produzidas principalmente por assírios e babilônios, a partir de 722 a.C. Por último, sendo que a maldição de Noé recaiu sobre seu neto Canaã e não sobre seu filho Cam, e que esses descendentes malditos foram conquistados pelos hebreus, segundo a Bíblia, tendo os mesmos desaparecidos com o tempo, donde vem então a ideia que deu origem a chamada “Maldição de Cam” tão propalada em todo esse tempo? Esta última questão não parece tão fácil para uma resposta objetiva, mesmo porque não são poucas as intenções da alma humana, quando decidida na defesa de interesses pessoais diversos. No entanto, novas interrogações são apresentadas aqui como possibilidades para uma reflexão sobre a questão: Será que o problema não está numa busca cega para se encontrar na religião e em todos os meios, formas de legitimação do absurdo por puro propósito de se defender interesses pessoais? Será que muitos indivíduos que se dizem cristãos ainda não entenderam que o tempo de impor sua vontade, ideias e interesses já se passou e que o que se abre diante de nós são novos tempos onde a exigência maior é a busca pelo respeito e compreensão do outro, onde não pode haver ideal maior que a supressão dos preconceitos que tantos males tem causado a humanidade durante séculos? Será que uma vez que a Bíblia ainda exerce grande influência sobre o modo de vida e os modos de ver o mundo de grande parte dos brasileiros, isso não exige de cada indivíduo que queira citar suas páginas que o façam com grande responsabilidade, para assim se evitar ideias tão equivocadas como essas que durante tantos séculos serviu de suporte na escravização, humilhação e destruição de tantos povos? Em última consideração, o texto bíblico parece sugerir que os africanos são de fato descentes de Cam. Porem, em nenhum momento os africanos são considerados malditos, uma vez que em todos os textos na Bíblia onde africanos são citados, há, em sua maioria, sempre uma referência honrosa. Entre essas referencias, podemos citar a rainha de Sabá, considerada uma rainha africana que visitou Salomão, a respeito de quem Jesus faz uma menção honrosa no Novo Testamento; No livro de Jeremias é citado um etíope chamado Ebede-Meleque Ministro do rei Zedequias, que livrou Jeremias da prisão; existem várias referencias ao Egito, inclusive no Novo Testamento, onde se diz que quando Herodes, rei de Israel perseguiu o pai de Jesus, eles lá se refugiaram; Por último, em Atos dos Apóstolos é feita uma referência a um mordomo de uma rainha da Etiópia, chamada Candace, que se converteu com a pregação de um pregador chamado Filipe. O que se pode compreender então é que a tão propalada maldição de Cam nunca existiu, pois Cam nunca foi amaldiçoado, mas sim o seu filho, Canaã. Os evangélicos que acreditam numa suposta maldição de Cam nunca leram sinceramente o texto bíblico, apenas reproduzem um discurso tosco sem nenhuma fundamentação, o que não é nenhuma novidade neste universo, onde em muitos casos, leituras sérias é quase um crime. Por outro lado, com os avanços das missões evangélicas na África parece haver uma tendência, às vezes inconsciente, de se demonizar todo e qualquer comportamento africano para se justificar a evangelização. Os cristãos parecem que ainda sentem o “peso” de ter que “civilizar o bárbaro”, afastando para longe os seus demônios. O que está claro é que muitos evangélicos, ainda que sejam sinceros quando realizam qualquer projeto evangelístico, ainda que tenham interesse verdadeiro em ajudar pessoas que sofrem em volta do planeta, ignoram completamente os processos históricos que tornaram esses povos o que são, e por lhes faltarem esse tipo de entendimento, acabam por dar a explicação que lhes parece mais óbvia, a ação demoníaca. Parece existir, na falta de conhecimento, uma necessidade de demonizar o que não se compreende para se justificar e legitimar as suas ações. Assim, o que se pode observar é que, tanto na academia, quanto entre pregadores cristãos, o texto que analisamos, em grande parte, é apenas citado, e não lido, e menos ainda analisado, daí os equívocos são inevitáveis. É bem provável, que o problema se encontre então, não na natureza da Bíblia, e sim, na natureza dos homens que a lêem, ou dela se utilizam. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS História geral da África, I: Metodologia e pré-história da África / editado por Joseph Ki-Zerbo. – 2. ed. rev. – Brasília : UNESCO, 2010. Disponível em: http://unesdoc.unesco.org/images/0019/001902/190249POR.pdf acessado em 05/09/2013. Oliva, Anderson Ribeiro. A História da África nos bancos escolares. Representações e imprecisões na literatura didática. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/eaa/v25n3/a03v25n3.pdf acessado em 05/09/2013. Santos, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal – 20ª Ed. – Rio de Janeiro: Record, 2011. Prandi, Reginaldo. De africano a afro-brasileiro: etnia, identidade, religião. REVISTA USP, São Paulo, n.46, p. 52-65, junho/agosto 2000. Disponível em: http://www.usp.br/revistausp/46/04-reginaldo.pdf Acessado em 05/09/2013. Bíblia Sagrada nas versões: Versão revisada da Tradução de João Ferreira de Almeida de acordo com os melhores textos em hebraico e grego, Editora Betel, Rio de Janeiro-RJ; Nova Versão Internacional, Sociedade Bíblica Internacional, São Paulo-SP, 2009.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

AS BEM-AVENTURANÇAS DOS PASTORES IDIOTAS




AS BEM-AVENTURANÇAS DOS PASTORES IDIOTAS

idiota
(Em entrevista concedida em 2010, o pastor Silas Malafaia chamou todos os pregadores que rejeitam a teologia da prosperidade de “idiotas”. Para comentar o fato, o pastor Geremias do Couto escreveu o texto a seguir)

Por Geremias do Couto
Bem-aventurados sois vós, “pastores idiotas”, quando fordes xingados com este epíteto simplesmente por acreditardes no que disse Jesus: “Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem consomem, e onde os ladrões minam e roubam” (Mateus 6.9). Tal ato insano, ao invés de vos maldizer, mostra que ainda estais firmes na verdade.
Bem-aventurados sois vós, “pastores idiotas”, que não sucumbistes aos “encantos” da teologia da prosperidade por compreender que “os que querem ser ricos caem em tentação, e em laço, e em muitas concupiscências loucas e nocivas, que submergem os homens na perdição e ruína” (1 Timóteo 6.9). Não vos entristeçais, nem penseis que estais sozinhos. Há muitos outros “idiotas” convosco, inclusive o apóstolo Paulo.
Bem-aventurados sois vós, “pastores idiotas”, por não vos curvardes aos arautos que vos maltratam em virtude de crerdes que aos ricos deste mundo a Palavra de Deus ordena: “Não sejam altivos, nem ponham a esperança na incerteza das riquezas” (1 Timóteo 6.7). Tal maldição é, na verdade, um reconhecimento de que pondes a vossa confiança não nas riquezas desta vida, mas na abundância que vos é dada para a glória de Deus.
Bem-aventurados sois vós, “pastores idiotas”, que resistis aos apelos dos que vos querem enredar com o brilho do ouro que perece, porque vós bem sabeis que é vosso dever continuardes a ensinar às suas ovelhas “que façam o bem, enriqueçam em boas obras, repartam de boa mente, e sejam comunicáveis” (1 Timóteo 6.18). Saibais que outros “pastores idiotas” iguais a vós foram já recebidos na glória e aguardam o precioso galardão.
Bem-aventurados sois vós, “pastores idiotas”, porque não perdestes a visão da semeadura e, por isso mesmo, sabeis que não se ganham almas com o glamour das riquezas humanas, mas com a sementeira do evangelho. Sem esquecerdes da advertência da parábola do semeador, que diz: “Os cuidados deste mundo, e a sedução das riquezas sufocam a palavra, e fica infrutífera” (Mateus 13.22).
Bem-aventurados sois vós, “pastores idiotas”, por não perfilardes o triunfalismo da pregação humanista, centrada no homem, que enriquece a quem prega e defrauda a quem ouve. Ainda que vos pareça estardes “fora do modelo contemporâneo”, alegrai-vos porque continuais apegados ao modelo bíblico, que diz: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo” (Gálatas 6.14).
Bem-aventurados sois vós, “pastores idiotas”, que embora injuriados pela vossa pregação “arcaica”, ainda carregais no bolso do vosso coração a credencial de servo do Altíssimo, enquanto alguns já a trocaram pelas credenciais de semideus, arrogante e soberbo e usam-na ao sabor das circunstâncias para se locupletarem em cima da lã de suas ovelhas.
Bem-aventurados sóis vós, “pastores idiotas”, que, enquanto alguns voam os céus do mundo em modernos jatinhos, trafegam as grandes avenidas em luzentes automóveis e se deleitam nos mármores de grandes mansões, o vosso prazer é estar junto das ovelhas, alegrardes com elas e, se preciso for, dar por elas a vossa própria vida. Não vos esqueçais que outros “idiotas” iguais a vós se encontram já no Reino do Pai.
Bem-aventurados sois vós, “pastores idiotas”, que preferis o “prejuízo” da coerência, da fidelidade a toda prova aos princípios imutáveis da Palavra de Deus, do que sucumbirdes – ainda que tentados – às lentilhas que se vos oferecem para amenizar eventuais necessidades imediatas. Mais vale o pão dormido da consciência tranquila do que os banquetes da consciência aprisionada.
Bem-aventurado sois vós, “pastores idiotas”, pelo modo como sois tratados por amor do nome do Senhor e por não vos enredardes pelo brilho passageiro da glória humana. Não sois melhores por isso, mas também não sois piores. Todavia, enchei o vosso coração de alegria porque o vosso nome faz parte da galeria dos heróis da fé que professam somente a Cristo e têm Deus como o bem maior da vida. Tende como lema o que Paulo ensinou: “Regozijai-vos sempre no Senhor; outra vez digo, regozijai-vos” (Filipenses 4.4).
Assina um “idiota” como todos vós.
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Geremias do Couto é pastor, teólogo e blogueiro